Heróis & vilões, de Frank Mclynn

“A guerra é uma atividade em que o sucesso só pode ser alcançado com o sangue derramado de muitos seres humanos.”

 

Que traços de caráter distinguem o paladino que conquistou tesouros do monstro maquiavélico que destruiu vidas? Essa é a principal pergunta que norteou a obra Heróis & vilões: por dentro da mente dos maiores guerreiros da história, escrita por Frank Mclynn.

Para sua reflexão, autor selecionou seis notáveis guerreiros: Espártaco, Átila, Ricardo Coração de Leão, Hernán Cortez, Tokugawa Ieyasu e Napoleão Bonaparte. A obra consiste em apresentar uma pequena biografia crítica de cada um, analisando aspectos de seu comportamento em face das situações que o contexto histórico lhes opôs. Sobretudo, enfatiza as batalhas nas quais sua liderança foi inequívoca, ressaltando a inteligência e a crueldade de suas ações.

A diversidade da seleção conduz o leitor a conhecer diferentes períodos históricos e suas particulares contingências; ao mesmo tempo, permite vislumbrar os vários modos de guerrear, mostrando como esses guerreiros foram sagazes tanto ao aplicar as regras estabelecidas quanto ao quebrá-las no momento que mais lhes favorecesse. Vê-se, portanto, que não está em xeque unicamente a disposição desses homens para o enfrentamento do inimigo, mas, sobretudo, sua capacidade de conduzir outros a assumirem a mesma responsabilidade – mesmo que as chances de recompensas para eles fossem menores. Em outras palavras, a obra discute a atividade guerreira na perspectiva da liderança exercida com o intuito de organizar ações bélicas (de curto e longo prazos), prover as necessidades dos combatentes e fomentar neles o desejo de lutar e vencer.

Sem imiscuir-se nas causas das guerras em si, o autor de Heróis & vilões deixa claro que a brutalidade do evento guerra libera o guerreiro de pudores quanto ao valor vida humana em sua individualidade. Ele reconhece: “A guerra é uma atividade em que o sucesso só pode ser alcançado com o sangue derramado de muitos seres humanos” (MCLYNN, 2008, p. 349). Nessa perspectiva, torna-se aceitável que se empreguem os meios disponíveis para matar o inimigo, destituí-lo de suas posses e subjugar seus familiares. É conhecida a máxima: “um assassinato faz um vilão, mas milhões fazem um herói”. Noutro viés, o líder-guerreiro também detém o poder de vida e morte sobre seus soldados, podendo enviá-los mesmo para lutar “batalhas perdidas” ou para sacrificá-los como peças em um jogo de xadrez.

A psicologia do guerreiro só pode ser compreendida se colocarmos entre parênteses a moralidade normal do tempo de paz. Isso inevitavelmente nos leva a outro enigma: o que é crime de guerra? O cínico contesta que os crimes de guerra são tudo aquilo que os perdedores do conflito fizeram; as atrocidades dos vencedores são apenas “danos colaterais”. No papel, os bombardeamentos de Dresden, Hiroshima e Nagasaki, na Segunda Guerra Mundial, foram crimes óbvios, mas os defensores dessas ações “necessárias” gostam de sublinhar a superioridade moral da causa pela qual [estão] lutando. Esse é obviamente um terreno escorregadio, como podemos ver no caso deste estudo. Por uma bizarra coincidência, tanto Napoleão quanto Ricardo Coração de Leão foram acusados de crimes de guerra, ambos no Oriente Médio e quase nas mesmas circunstâncias e localização geográfica (MCLYNN, 2008, p. 351).

Não há dúvida de que a guerra é um evento extremo, capaz de provocar perturbações no raciocínio e na psique humana em razão das paixões envolvidas. Para lançar-se a ela, generais e soldados precisam estar imbuídos do desejo – ou, pelo menos, da disposição – de matar e subjugar. A convicção do direito de domínio sobre um território, a possibilidade de perder elementos de subsistência ou mesmo a fé são, ainda hoje, fatores que levam nações a optarem pela guerra. Não havendo diálogo e entendimento (ou seja, se nenhuma das partes ceder), torna-se um imperativo destruir a ameaça – ou “neutralizá-la”, para usar jargão mais atualizado. Esse processo custa, na maior parte das vezes, vidas humanas, que se extinguem pela morte, pela escravidão ou pela absoluta ofensa aos seus direitos individuais.

Já houve, sem dúvidas, desculpas bem mais descaradas para a guerra: a ideia de supremacia racial e a reserva de mercados, por exemplo. Contudo, é certo que o fator econômico está, de forma direta ou indireta, relacionado a todos os motivos que conduzem à guerra. Por isso, raramente o herói se contenta com o reconhecimento; ele aceita com prazer recompensas concretas e, assim, deseja que honras e agradecimentos se materializem na forma de tesouros reluzentes ou favores inestimáveis.

Até que ponto as promessas de tesouro fomentam a ação dos guerreiros? Qual o limite entre convicção e ganância? Espártaco lutou contra Roma para conseguir sua liberdade, ao passo que Átila por concluir que a conquista lhe renderia bem mais que as chantagens. Após derrotar os franceses que não aceitaram a revolução, Napoleão arvorou-se imperador e pretendeu os tesouros negados aos Bourbons. Se tivessem alcançado seus objetivos, que outros teriam sido formulados por esses guerreiros-líderes?

Questões como essas mostram a complexidade da psique do guerreiro e a inexistência de princípios gerais sobre os quais sua personalidade possa ser descrita. Mclynn, todavia, ressalta alguma das características ou comportamentos que contribuem para que um homem chegue ao status de guerreiro. Eis a conclusão que ele apresenta ao final da obra:

(…) nossa compreensão da atividade da guerra e da mentalidade dos grandes (e não tão grandes) capitães da história é aqui aprofundada pelo número de forças interativas identificáveis, mas também pelos complexos significados estabelecidos tanto pelas similaridades quanto pelas diferenças entre eles.

Napoleão, Ricardo e Átila enfrentaram oposição militar de primeira classe em algum estágio de suas carreiras, nas formas de Wellington, Saladino e Aécio, respectivamente, enquanto Cortez, Ieyasu e Espártaco não. Se operássemos com uma escala moral, colocaríamos Espártaco no topo e Cortez embaixo de todos. Se a pedra de toque fosse o gênio militar, a escala decrescente seria: Napoleão, Ricardo, Cortez, Átila, Ieyasu e Espártaco. Napoleão e Cortez fertilizaram forças de troca socioculturais, de maneiras que os outros não empregaram. Apenas Ieyasu pode-se dizer que lutou batalhas não ideológicas. Os possíveis modos de comparação são múltiplos. Embora não haja um tipo psicológico ou padrão mental que nos permita diferenciar os guerreiros no verdadeiro sentido dos aventureiros – por exemplo, o explorador H.M. Stanley, homem que encontrou Livingstone na África central tinha a mentalidade de um guerreiro, muito embora jamais tivesse comandado grandes exércitos – certos traços comuns podem ser claramente distinguidos.

Todos os guerreiros bem-sucedidos devem ser praticantes monomaníacos da arte da guerra, devem ter energia sobre-humana e devem começar a carreira ainda jovens. Para ser grande, uma pessoa deve ter um leque de qualidades raras: ser capaz de ler a mente do inimigo, ter habilidade para conquistar aliados, ser ao mesmo tempo decidida e flexível, compreender a importância da moral, possuir uma aguçada compreensão política, ser capaz de identificar soluções simples para os problemas, saber como e quando atingir o calcanhar de Aquiles do inimigo, ser capaz de pensar minuciosamente nas circunstâncias da vitória mesmo antes de entrar em luta, e, acima de tudo, ter sorte (MCLYNN, 2008, pág. 353-354).

Uma qualidade discutida e caracterizada pelo autor, mas que acabou negligenciada em sua conclusão foi a capacidade do guerreiro de discursar em prol de sua causa e para motivar seu exército. É digno de nota que as habilidades de linguagem do guerreiro influenciam o desempenho de seus soldados. Um líder-guerreiro deverá ser capaz de exortar seus soldados no momento de entrarem em batalha. Para isso, esperam-se declarações incisivas e confiantes. Infelizmente, não há fontes diretas que permitam conhecer os discursos dos líderes-guerreiros selecionados pelo autor, porque os historiadores de então não lhe fizerem registro nem havia meios tecnológicos de os preservar. Se estivessem disponíveis, certamente esses discursos poderiam ser usados para investigar se nesses homens predominava o heroísmo ou a vilania.

 

MCLYNN, Frank. Heróis & vilões: por dentro da mente dos maiores guerreiros da história. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008.