Da aventura à investigação

A lei de Lavoisier, segundo a qual “tudo se transforma”, aplica-se tanto à natureza quanto à cultura. Por isso, as origens da literatura policial devem ser buscadas em outro gênero literário: o romance de aventura, o qual se transformou devido às mudanças socioculturais, englobando a realidade dos leitores, suas expectativas bem como elementos do pensamento científico vigente.

Quando a epopeia perdeu seu lugar como forma narrativa por excelência, o romance com temáticas diversas assumiu seu lugar, alcançando seu auge nos séculos XVI e XVIII. Nota-se que, independentemente da temática, a ação e o heroísmo estavam presentes em muitas narrativas pós-clássicas, cabendo-lhes a designação genérica de romance de aventura. Verificam-se diversas manifestações desse gênero: desde o romance de cavalaria até o romance de espionagem.

9 Romance de cavalaria. O precursor do romance de cavalaria é o romance grego antigo, especialmente o Aithiopikōn (Etiópica), de Heliodoro (séc. III d.C.), que reúne as qualidades características do gênero: enredo altamente complicado e bastante fantástico, pseudo-romântico, e estilo bombástico. A mesma forma aparece, na Idade Média tardia, as versões em prosa das gestes lendárias ou pseudo-romântico, especialmente nas versões da lenta do rei Artur e da Távola Redonda, que forneceu enredos ou episódios para grande parte dos romances de cavalaria, inclusive para um dos primeiros e literariamente melhores, La morte d’Artur (1485), do inglês Thomas Malony.

10 Independente da lenda de Artur é Tirant lo Blanch (1490), do catalão Johanot Martorell, que parece usar fontes bizantinas e orientais; é um dos melhores monumentos literários da última Idade Média. Mas os típicos romances de cavalaria são ‘arturianos’: Amadis de Gaula (1508), que existe em versão espanhola de Garcí Rodríguez de Montalbo (a existência de uma versão portuguesa, anterior, é discutível); Palmerín de Oliva (1511); Palmerín de Inglaterra (1547), e numerosos outros, que eram dos livros mais lidos do séc. XVI. Um romance de cavalaria genuinamente português é Crônica do Imperador Clarimundo (1522), do historiador João de Barros. (…)

11 Equivalentes modernos da cavalaria. O romance de cavalaria morreu no começo do séc. XVII, com os últimos resíduos de um feudalismo independente das monarquias absolutas. Mas não se extinguiu o interesse público pelas aventuras fantásticas. O romance de aventuras ressurgiu no séc. XIX: o exemplo talvez mais famoso seja The treasure island. (1833; A Ilha do tesouro), de Robert Louis Steverson. Com o fim da era das descobertas geográficas e a crescente modernização das regiões coloniais, o interesse pelas aventuras fantásticas faz apelo às invenções tecnológicas e aos espaços astronômicos; nasceu assim a ficção científica (science fiction) (…) (ENCICLOPÉDIA MIRADOR INTERNACIONAL, 1994, p. 10.020).
 

Grosso modo, o romance de aventura caracteriza-se pela primazia da ação; o herói, símbolo do bem, luta contra o mal, sobrepujando-o por meio de sua astúcia e tenacidade. Trata-se de uma narrativa dinâmica, repleta de episódios que fazem o leitor prender o fôlego, em razão dos perigos vivenciados pelo protagonista. Em geral, o enredo é complexo e intrincado; as personagens são típicas. Também o romance gótico inglês e os folhetins ofereceram subsídios à estrutura do gênero policial, especialmente no que se refere à preferência pela atmosfera terrificante e pela ambientação na camada pobre da sociedade, considerada nicho de criminosos.

O avanço tecnológico, e, sobretudo, o culto à razão científica verificados durante o século XIX incitaram novas transformações na tradição literária, criando condições para que a literatura policial, superando a de aventura, cativasse o gosto da sociedade pós-revolução industrial, em razão da conformação ou problematização das novas relações sociais que se estabeleceram. A estruturação da polícia como corporação gerenciada pelo Estado bem como a difusão da noção de direito constituem fatores políticos determinantes para o surgimento do gênero policial.

Benjamin, apud Freitas (sem data), corrobora argumentos de Engles, propondo a seguinte explicação para o contexto sociocultural em que nasce a literatura policial:

Uma cidade como Londres, onde se pode vagar horas a fio sem se chegar ao início do fim, sem se encontrar o mais ínfimo sinal que permite inferir a proximidade do campo, é algo realmente singular. Essa concentração colossal, esse amontoado de dois milhões e meio de seres humanos num único ponto centuplicou a força desses dois milhões e meio… Mas o sacrifício que isso custou só mais tarde se descobre. Quando se vagou alguns dias pelas calçadas [...] só então se percebe que esses londrinos tiveram de sacrificar a melhor parte de sua humanidade para realizar todos os prodígios da civilização [...] O próprio tumulto das ruas tem algo de repugnante, algo que revolta a natureza humana. [...] Essa indiferença brutal, esse isolamento insensível de cada indivíduo em seus interesses privados, avultam tanto mais repugnante e ofensivo quanto mais esses indivíduos se comprimem num espaço exíguo (FREITAS, s.d).

A Londres vitoriana, ambiente dos contos e romances de Conan Doyle. (Fonte: site da Scotland Yard http://content.met.police.uk/Article/The-Crime-Museum).

Nesse contexto, o detetive surge como novo modelo de herói: lógico e metódico, dotado de um senso de justiça que extrapola suas próprias convicções pessoais, uma vez que pautada na lei. Suas ações podem não ser tenazes*, mas, sem dúvida, existe uma dinâmica na narrativa, a qual se encontra centrada na persecução de pistas e na solução de um crime que inicialmente se afigura excepcionalmente complexo aos olhos do leitor. Na era dos direitos, o detetive surge como herói ideal, pois

O crime e a violência são tentações permanentes do homem. Sua frequência na ficção serve para substituir, por uma satisfação vicária, a dos instintos recalcados. Por outro lado, o romance policial supõe e justifica um universo social bem organizado, em que os defensores da lei (a polícia, o detetive) restabelecem com sucesso a ordem perturbada pelos criminosos. O romance policial é baseado em uma organização da sociedade em que não se pode prender e acusar indistintamente os suspeitos, o que tornaria impossível, porque dispensável, o meticuloso esclarecimento do mistério; essa condição é dada especialmente pelas normas da legislação anglo-saxônica. Por isso, a grande maioria dos autores de romances policiais são ingleses e norte-americanos (ENCICLOPÉDIA MIRADOR INTERNACIONAL, 1994, p.10.028)

 Otto Maria Carpeaux tece as seguintes considerações a respeito do contexto socioliterário que faz emergir o gênero policial.

No princípio do século XX, uma vasta literatura de divulgação de conhecimentos técnicos é acompanhada por outra literatura de glorificação da técnica, prevendo progressos enormes e invenções transcendentais. O modelo dessa literatura encontrou-se nos “romances de antecipação”, do francês Jules Vernes, literatura infantil, ingênua e simplista, logo superada pelos progressos alcançados na realidade. Da combinação, inventada por Verne, entre romance técnico e romance de aventuras, surgiu, por um lado, o romance policial, modernização do “romance gótico”, e, por outro lado, o romance de utopias técnicas. Os contos policiais de Doyle são mais do que adaptações engenhosas da “tale of terror” ao ambiente técnico-científico da cidade moderna. São narrados com o melhor humor inglês e eternizam um ambiente: a Londres elegante dos tempos de Oscar Wilde, teatro de crimes trágicos e tragicômicos. Além de criar um estilo para os repórteres, Doyle criou um personagem de imortalidade tão segura como Don Juan ou Don Quixote. Esse Sherlock Holmes desempenha um papel de significação social, ajudando de maneira tão deliciosa a polícia incompetente no esclarecimento de crimes misteriosos. Naqueles anos, os atentados dos anarquistas assustaram a sociedade, revelando a incapacidade das autoridades de protegê-la contra a revolução latente. Sherlock Holmes, porém, sem preconceitos de ordem burocrática, emprega os requintes da técnica científica para descobrir os criminosos. A sociedade está a salvo (CARPEAUX, 2011, s.p.).

Mais do que todos os gêneros literários anteriores, o policial surge como uma produção cultural de massa perfeitamente amoldada à sociedade burguesa pós-revolução industrial. Tanto os valores construídos quanto os fragilizados nos grandes aglomerados urbanos põem em xeque a questão da ética e da criminalidade, mostram a vulnerabilidade do homem moderno em relação aos outros homens – seres tão próximos e tão alheios. Confrontam-se o individualismo e a coletividade, o privado e o público; o direito e a justiça. O período entre as guerras mundiais tornou a questão particularmente fecunda, ainda mais porque esse gênero literário, especialmente na modalidade do romance de enigma, manteve-se fiel à rotina discursiva dos contos de fada, na qual o vilão é sancionado ao final, mantendo-se, pelo menos no imaginário, a sensação de ordem e de justiça, que “tarda, mas não falha”.

Conquanto tenha caído no gosto popular, não se olvida da qualidade literária de diversas obras do gênero policial. A despeito do desinteresse crítica acadêmica, o fato de constituir um atemporal fenômeno de público é, por si só, indício de que há valor no gênero; esses contos e romances não figuram à toa entre os mais lidos e traduzidos da história.

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* Ressalte-se a tenacidade de Sherlock Holmes. A disposição e a energia que ele aplica às investigações constituem reminiscência do típico herói do romance de aventura. Ao contrário de Dupin, o detetive exclusivamente cerebral, Holmes sai às ruas; é capaz de lutar, literalmente, contra os criminosos, dominá-los fisicamente e até usar armas, para, finalmente, prendê-los. Na fase noir da literatura policial, essa característica será ainda mais recorrente aos heróis-detetives.

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REFERÊNCIA

ALBUQUERQUE, Paulo de Medeiros e. O mundo emocionante do romance policial. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979.

CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental. Vol. único digital. São Paulo: Leya, 2011.

ENCICLOPÉIDA MIRADOR INTERNACIONAL. São Paulo; Rio de Janeiro: Encyclopaedia Britannica do Brasil, 1994.

FREITAS, Adriana. Romance policial: origens e experiências contemporâneas. Disponível em: http://www.uff.br/revistacontracultura/Adriana20Freitas_artigo_romance_policial.pdf.

GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. 5. ed. São Paulo: Ática, 1998.

 

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