Narrativas primordiais

Nada de grande ocorre na vida dos homens sem infortúnio.
Sófocles

 

Sem deixar de reconhecer o mérito de Edgar Allan Poe como o criador do gênero policial com suas configurais modernas, estudiosos não se cansam de buscar em um passado mais distante aquela que seria a narrativa policial primordial.

Há duas célebres candidatas: Édipo rei, tragédia de Sófocles, e Zadig ou o destino, de Voltaire. Ambas são dignas de louvor.

 

Édipo rei

 

 

Édipo e a esfinge: "Decifra-me ou te devoro."

Autor de diversas tragédias encenadas nos teatros da Grécia antiga, Sófocles compôs uma triologia para contar a saga do desafortunado Édipo, que nasceu e morreu sob uma maldição divina: ele mataria o pai e desposaria a própria mãe.

Édipo conquistou o trono de Tebas e o leito real da bela Jocasta quando salvou a cidade da esfinge que devorava todos os seus jovens moradores. Ele decifrou o enigma, mostrando-se digno de ser rei em razão de sua bravura e inteligência. Eis, contudo, que poucos anos depois, a cidade volta a ser atormentada pela fúria dos deuses. Agora, a peste ataca a população indiscriminadamente: homens, mulheres e crianças; e também dizima seus rebanhos e plantações. A fome e a morte estão por toda parte! De joelhos, a cidade clama que o rei descubra a causa do desgosto divino, aplacando, em consequência, sua ira.

Isso o rei Édipo promete e diligencia em concretizar. Envia Creonte, seu cunhado e general mais confiável, para indagar do oráculo de Apolo, em Delfos, a solução para tamanho infortúnio. A resposta vem em forma de outro enigma, que Édipo se compromete a resolver.

ÉDIPO – Mas qual é exatamente? O que dizes — sem me alarmar — tampouco me tranquiliza.

CREONTE – Desejas me ouvir diante deles? Estou pronto a falar. Ou preferes entrar?

ÉDIPO – Fala diante de todos. O sofrimento deles me pesa mais que a preocupação com minha pessoa.

CREONTE – Pois bem, eis a resposta que me foi dada em nome do deus. O grande Apolo nos dá a ordem expressa “de limpar a imundície que corrompe este país, e não deixá-la crescer até que se torne inextirpável”.

ÉDIPO – Sim. Mas como limpá-la? Qual é a natureza do mal?

CREONTE – Expulsando os culpados, ou fazendo-os pagar assassínio por assassínio, pois é esse sangue que perturba nossa cidade.

ÉDIPO – Mas qual é o homem de cuja morte fala o oráculo?

CREONTE – Este país teve outrora por chefe Laio, antes de tu mesmo passares a governar nossa cidade.

ÉDIPO – Disseram-me, mas jamais o vi.

CREONTE – Ele está morto, o o deus hoje nos prescreve claramente vingá-lo e punir seus assassinos (SÓFOCLES, 2001, p. 8-9).

 

Imediatamente, Édipo inicia um inquérito para identificar, localizar e punir o assassino do rei Laio. Segundo a mitologia grega, todo poder, conhecimento e justiça provém dos deuses. Não deve surpreender, portanto, que oráculos e profecias sirvam de prova e testemunhos dos crimes.

As primeiras informações são apresentadas pelo próprio Creonte que, além de comunicar os desígnios do deus, esclarece a Édipo as circunstâncias conhecidas da morte do antigo rei.

ÉDIPO – Mas onde estão eles? Como reencontrar nesta hora o vestígio incerto de um crime tão antigo?

CREONTE – O deus diz que estão neste país. O que se procura se encontra; é o que se negligencia que se deixa escapar.

ÉDIPO – Foi em seu palácio, ou no campo, ou fora do país, que Laio morreu assassinado?

CREONTE – Ele nos deixou para consultar o oráculo, segundo disse. Não retornou à sua casa desde o dia em que partiu.

ÉDIPO – Nenhum mensageiro, nenhum andarilho da estrada presenciou o drama, de quem se pudesse obter alguma informação?

CREONTE – Todos morreram, exceto um, que fugiu, apavorado, e só pôde contar do que havia visto uma coisa, uma só…

(…) que Laio havia se deparado com bandidos e caíra sob o ataque de vários, não de um homem só (SÓFOCLES, 2001, p. 10-11).

Édipo proclama, diante da cidade reunida em assembleia, seu interesse e sua firme disposição de atender ao clamor de justiça do deus. Na oportunidade, emprega estratégias investigativas, como pedir que testemunhas se apresentem e oferecer recompensas, além de promover intimidação ao culpado:

A todo aquele dentre vós que souber sob o braço de quem tombou Laio, o filho de Lábdaco, ordeno revelar-me tudo. Se ele teme por si mesmo, que se livre sem glória da culpa que lhe pesa: não sofrerá nenhuma violência e partirá daqui em plena segurança. Se ele sabe ser outro o assassino – ou mesmo um homem nascido em outra terra –, que não guarde o silêncio, que pagarei o preço de sua revelação, acrescido de minha gratidão. Mas se quiserdes permanece4r mudos, se um de vós, temendo por um dos seus atos ou por si mesmo, furtar-se a meu apelo, sabei nesse caso como pretendo agir. Seja quem for o culpado, proíbo a todos, neste país onde tenho o trono e o poder, que o recebam, que lhe falem, que o associem às preces e aos sacrifícios, que lhe dêem a menor gota de água. Quero que todos, ao contrário, o lancem para fora de suas casas, como imundíce de nosso país: o oráculo augusto de Delfos há pouco me revelou isso(SÓFOCLES, 2001, p. 17).

Chamado a contribuir com as investigações, Tirésias, o adivinho cego, inicialmente se recusa a revelar o que sabe. Ele declara não querer afligir o rei, porque “as infelicidades virão sozinhas”. Com altivez, o velho resiste mesmo diante das mais severas ofensas que Édipo faz a seus dons; porém, acaba sucumbindo diante da injusta acusação lançada em sua face.

ÉDIPO – (…) Saibas portanto que, para mim, foste tu que tramaste o crime, foste tu que o cometeste – apenas não foi o teu braço que golpeou. Mas, se tivesses olhos, eu diria que mesmo isso foste tu, somente tu o fizeste.

TIRÉSIAS – É mesmo? Então intimo-te, eu, a cumprir a ordem que tu mesmo proclamaste, de não falar deste dia em diante a quem quer que seja, nem a mim, nema a estas pessoas,; pois fica sabendo que és tu, és tu criminoso que mancha este país (SÓFOCLES, 2001, p. 25).

Naquele momento de fúria, as palavras do adivinho soam absurdas e insensatas aos ouvidos de Édipo. Ele supõe que sejam fruto de uma conspiração de Creonte. Contudo, à medida que o velho e cego sacerdote continua sua narrativa, o rei percebe inquietantes coincidências: ele deixou sua pretensa casa paterna após rumores de que seria ”filho suposto”; encontrou, no caminho que o levara a Tebas, um nobre, a quem matou, devido a injusta agressão sofrida. Datas e lugares coincidem. Contudo, não passam de provas circunstanciais!

O coração do rei não se aquieta diante da dúvida.

Aflita por tranquilizar seu atual rei e amado esposo, Jocasta confirma as circunstâncias conhecidas da morte de Laio; como argumento para aplacar seus temores, também lhe relata a nefasta profecia, afirmando que deu à luz um filho cujo destino era matar o pai. Se Laio estava destinado a morrer pelas mãos do próprio filho, como poderia Édipo, um estrangeiro, ser seu assassino? Jocasta alega que a devoção ao marido suplantou seu espírito maternal, levando-a a entregar o recém-nascida para  que morresse nas mãos de um serviçal. Ela própria não teria coragem de fazê-lo!

Descobrir-se-á, mais tarde, que por infelicidade o serviçal não executoua o desígnio de seus soberanos. Estava prestes a fazê-lo quando encontrou um estrangeiro piedoso que lastimou sua tarefa iníqua; então, entregou a criança a ele, para que a criasse como seu legítimo filho. Em sua terra natal, aquele homem humilde e caridoso encontrou família mais nobre a que entregar a criança.

Édipo toma ciência desses acontecimentos esparsos e aparentemente desconexos. Sua promessa ao deus e à assembleia obriga-o a persistir em uma investigação sistemática até chegar à verdade. A providência mais lógica é chamar ao palácio o serviçal que sobreviveu ao ataque dos bandidos que mataram Laio. Édipo calcula que “se ele repetir o plural” não haverá razões para suspeitar de si mesmo.

Enquanto isso, um mensageiro chega a Tebas para anunciar-lhe que o povo de Corinto deseja que ele se torne seu rei. No saguão do palácio, e serviçal caridoso e o cidadão corintio reconhecem-se, e a verdade vem à tona. O corintio relata que ele próprio entregou Édipo, quando criança, nas mãos de Pólibo.

Édipo reconhece a concretização da profecia – e consequentemente emerge a tragédia que ele engendra. Ele descobre, em um átimo, ser o assassino de Laio. Nada mais lhe resta fazer, a não ser cumprir contra si a sentença dada: fura os próprios olhos e parte, desgraçado, para o exílio.

Ao final do drama, o discurso de Édipo é, ao mesmo tempo, a voz de um vilão, de uma vítima e de um juiz:

ÉDIPO – Ah! nuvens de trevas! nuvem abominável que te estendes sobre mim, imensa, irresistível, esmagadora! Ah! como sinto penetrar em mim o aguilhão de minhas feridas e lembranças de meus males! (…)

Apolo, meus amigos! sim, é Apolo que me inflige nesta hora as desgraças atrozes que são doravante meu quinhão. Mas nenhuma outra mão me golpeou senão a minha. Que podia eu ainda ver, cuja visão tivesse uma doçura para mim? (…)

Sim, o que eu podia ver que me satisfizesse? Há um apelo ainda que eu possa ouvir com alegria? Ah! levai-me depressa para longe daqui! levai, meus amigos, o execrável flagelo, o maldito entre os malditos, o homem que entre os homens é o mais abominado pelos deuses!

(…) Ah! seja quem for, maldito o homem que, sobre a erva de uma pastagem, tirou o entrave de meus pés, me salvou da morte, me devolveu à vida! ele nada fez que pudesse me servir.

Se eu tivesse morrido naquele momento, nem para mim nem para os meus teria me tornado o terrível desgosto que hoje sou. (…)

Mas para mim, enquanto eu viver, que esta cidade, que a cidade de meus pais jamais me dê abrigo! Deixa-me antes habitar as montanhas, o Citéron a que me diziam destinado (SÓFOCLES, 2001, p. 91-99).

Nota-se que há fundamento para que se atribua a Édipo rei o status de primordial narrativa do gênero policial. A construção de um inquérito e a disposição investigativa do herói são, indubitavelmente, razões para encontrar na obra as primeiras luzes desse gênero literário. As evidências são paulatinamente apresentados ao leitor; elas se encadeiam de uma maneira lógica, de modo que ele pode, passo a passo, juntá-las para identificar o criminoso.

Todavia, não se pode negar que haja na obra o malfadado apelo ao sobrenatural, recurso que os autores policiais terminantemente rejeitam. A literatura policial é construída com o pressuposto de que a lógica e a arguta observação são os meios mais adequados para se chegar à verdade. É inconcebível a existência de um  Sherlock Holmes na Antiguidade – os deuses não o permitiram!

 

Zadig

Zadig ou o destino: uma história oriental é uma obra literária – com forte apelo filosófico – publicada pelo iluminista Voltaire, em 1747. Nessa novela, são narrados os infortúnios e os frágeis sucessos de um jovem babilônio, para quem a felicidade reluta em sorrir. Não se afirma explicitamente, mas há razões para ver-se desenhado, no protagonista, o perfil clássico de um filósofo. A história é constituída de 21 capítulos, dos quais apenas um pode ser evocado como texto embrionário da literatura policial. Trata-se de O cão e o cavalo (Capítulo III).

A história passa-se na Babilônia da Antiguidade, no tempo do reinado de Moabdar. O protagonista é Zadig, um nobre, com boa índole e educação. Seu caráter é singular:

Embora moço e rico, sabia moderar as paixões, não afetava nada; não pretendia ter sempre razão, e costumava respeitar a fraqueza dos homens. Era de espantar que, com tanto espírito, jamais procurasse meter a ridículo esses diálogos tão vagos, tão incoerentes, tão irrequietos, essas temerárias maledicências, esses juízos ignaros, essas grosseiras chocarrices, esse vão palavrório, a que se chamava conversação em Babilônia. Aprendera, no primeiro livro de Zoroastro, que o amor-próprio é um balão cheio de vento, de onde brotam tempestades quando se lhes dá uma alfinetada. Não se vangloriava, principalmente, de desprezar as mulheres e subjugá-las. Era generoso; não se arreceava de prestar serviços a ingratos, conforme este grande preceito de Zoroastro: “Quando comeres, dá de comer aos cães, ainda que te mordam”. Era o mais sábio possível, pois procurava viver com os sábios. Instruído na ciência dos antigos caldeus, não ignorava os princípios físicos da natureza, tais como se conheciam então e, quanto à metafísica, sabia dessa matéria o que sempre se soube em todas as épocas, isto é, pouquíssima coisa. Estava firmemente convicto de que o ano se compunha de trezentos e sessenta e cinco dias e um quarto, mau grado a nova filosofia do seu tempo, e de que o sol ficava no centro do mundo; e quando os principais magos, com insultuosa arrogância, lhe diziam que demonstrava, assim, maus sentimentos e que só um inimigo do Estado poderia acreditar que o sol girasse sobre si mesmo e o ano tivesse doze meses — Zadig calava sem cólera e sem desprezo (VOLTAIRE, on-line, s/p).

Sábio, mas romanticamente desafortunado, Zadig viu-se traído pelas mulheres que amou – e, ao longo de sua vida, seria muitas vezes castigo pelo destino. Tal condição levou-o à instrospecção e à busca do conhecimento; por isso, afastou-se de casa, para se dedicar à investigação da natureza, de onde desvendava “mil diferenças onde os outros não viam [mais] que uniformidade” (VOLTAIRE, on-line, s/p).

Certa feita, estava Zadig em incursão reflexiva pelo bosque à margem do rio Eufrates, quando se deparou com o eunuco da rainha e diversos oficiais reais, que procuravam, desesperados, o animal de estimação de Sua Majestade, a bela Astertéia.

— Jovem — disse-lhe o primeiro eunuco, — não viste o cão da rainha?

— É uma cadela, e não um cão, respondeu Zadig discretamente.

— Tens razão — tornou o primeiro eunuco.

— É caçadeira, e por sinal que muito pequena — acrescentou Zadig. — Deu cria há pouco; manqueja da pata dianteira esquerda e tem orelhas muito compridas.

— Viste-a, então? — perguntou o primeiro eunuco, esbaforido

— Não — respondeu Zadig, — nunca a vi na minha vida nem nunca soube se a rainha tinha ou não uma cadela (VOLTAIRE, on-line, s/p).

Quase imediatamente, surgiu alvoroçado o monteiro-mor, em busca do mais notável cavalo real, que havia fugido há pouco. O serviçal também indaga de Zadig:

O monteiro-mor dirigiu-se a Zadig e perguntou-lhe se não vira acaso o cavalo do rei.

— É — respondeu Zadig — o cavalo de melhor galope; tem cinco pés de altura e os cascos pequenos; a cauda mede três pés e meio de comprimento; o freio é de ouro de vinte e três quilates; e as ferraduras de prata de onze denários.

— Que direção tomou ele? onde está? — perguntou o monteiro-mor.

— Não o vi — respondeu Zadig, — nem nunca ouvi falar nele (VOLTAIRE, on-line, s/p).

Como podia Zadig saber tantos detalhes, se não vira qualquer dos animais? Não podia! Por isso, foi acusado de roubo e levado ao tribunal, onde acabou condenado a passar o resto da vida na Sibéria.

Como os animais fossem encontrados pouco tempo depois de proferida a sentença, os juízes não tiveram saída, senão libertar Zadig, absolvendo-o. Contudo, por ter mentido, dizendo que não viu algo que vira, foi obrigado a pagar os custos do processo. Ele pagou e pôde, então, defender-se perante o conselho do grande desterham:

Estrelas de justiça, abismos de ciência, espelhos da verdade, vós que tendes o peso do chumbo, a dureza do ferro o fulgor do diamante e tanta afinidade com o ouro! Já que me é dado falar perante essa augusta assembléia, juro-vos por Orosmade que jamais vi a respeitável cadela da rainha, nem o sagrado cavalo do rei dos reis. Eis o que me aconteceu. Passeava eu pelas cercanias do bosque onde vim a encontrar o venerável eunuco e o ilustríssimo monteiro-mor, quando vi na areia as pegadas de um animal. Descobri facilmente que eram as de um pequeno cão. Sulcos leves e longos, impressos nos montículos de areia, por entre os traços das patas, revelaram-me que se tratava de uma cadela cujas tetas estavam pendentes, e que portanto não fazia muito que dera cria. Outras marcas em sentido diferente, que sempre se mostravam no solo ao lado das patas dianteiras, denotavam que o animal tinha orelhas muito compridas; e, como notei que o chão era sempre menos amolgado por uma das patas do que pelas três outras, compreendi que a cadela de nossa augusta rainha manquejava um pouco, se assim me ouso exprimir. Quanto ao cavalo do rei dos reis, seja-vos cientificado que, passeando eu pelos caminhos do referido bosque, divisei marcas de ferraduras que se achavam todas a igual distância.

“Eis aqui — considerei — um cavalo que tem um galope perfeito”. A poeira dos troncos, num estreito caminho de sete pés de largura, fora levemente removida à esquerda e à direita, a três pés e meio do centro da estrada. “Esse cavalo — disse eu comigo — tem uma cauda de três pés e meio, a qual, movendo-se para um lado e outro, varreu assim a poeira dos troncos”. Vi debaixo das árvores, que formavam um dossel de cinco pés de altura, algumas folhas recém-tombadas e concluí que o cavalo lhes tocara com a cabeça e que tinha, portanto, cinco pés de altura. Quanto ao freio, deve ser de ouro de vinte e três quilates: pois ele lhe esfregou a parte externa contra certa pedra que eu identifiquei como uma pedra de toque. E, enfim, pelas marcas que as ferraduras deixaram em pedras de outra espécie, descobri eu que era prata de onze denários (VOLTAIRE, on-line, s/p).

Repentinamente, tudo fez sentido – os juízes ficaram maravilhados pelo discernimento de Zadig. Sua proeza mental foi levada ao conhecimento dos soberanos da Babilônia e ele passou, desde então, a gozar de suas atenções e obséquios.

Não é difícil enxergar no discurso de Zadig a mesma mente lógica e sistemática de Auguste Dupin, a fazer inferências objetivas e precisas a partir dos fenômenos observados. Mesmo no contexto da Antiguidade, Zadig poderia ser descrito como “uma máquina de pensar”.

O caráter idôneo e retilíneo é outro fator que aproxima Zadig dos detetives do romance policial tradicional. Da mesma forma, a falta de sorte de Zadig nos problemas do coração leva, inicialmente, o leitor da narrativa a acreditar que ele será solitário e sem amor, como Holmes e Dupin. Contudo, o epílogo da novela rechaça essa expectativa.

 

Conclusão

Ambas as obras trazem elementos que seriam, mais tarde, amplamente explorados pelos autores da literatura policial tradicional:

  • o crime como elemento central da narrativa,
  • o perfil do protagonista-detetive (inteligência/perspicácia descomunal, idoneidade, perseverança, compromisso com a verdade acima de qualquer outro valor etc.),
  • a construção do “inquérito”, com base na busca de evidências.

Nota-se, contudo, que cada obra põe em destaque diferente aspecto desses elementos: enquanto Zadig é “uma máquina de pensar”, Édipo promove uma investigação minuciosa, que permite ao leitor acompanhar o processo investigativo e desvendar o crime junto com o protagonista.

Seria imprudente concluir que ambas constituíram fonte de inspiração para o gênero policial?

 

Referência

ALBUQUERQUE, Paulo de Medeiros e. O mundo emocionante do romance policial. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979.

SÓFOCLES. Édipo rei. Porto Alegre: L&PM, 2001.

VOLTAIRE. Zadig. Ridendo Castigat Mores, 2001. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/zadig.pdf.

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