Literatura policial

A obra-prima habitual não entra em nenhum gênero senão o seu próprio; mas a obra-prima da literatura de massa é precisamente o livro que melhor se inscreve no seu gênero. O romance policial tem suas normas; fazer “melhor” do que elas pedem é ao mesmo tempo fazer “pior”: quem quer “embelezar” o romance policial faz “literatura”, não romance policial.

Tzvetan   Todorov

 

A literatura policial insere-se no universo da cultura popular, estando especificamente ligada à cultura de massa – sendo assim, encontra-se em franca oposição à chamada literatura erudita. Essa classificação evidencia a existência de um juízo de valor a priori quanto à qualidade dos textos produzidos nessa seara, ao mesmo tempo em que atesta a sua grande circulação social.

Historicamente, pode-se ver a literatura policial como um desdobramento previsível dos romances de aventura, adaptados ao contexto urbano e industrial do século XIX. Paulo de Medeiros e Albuquerque explica que:

Durante séculos, portanto, a aventura dominou completamente a vida literária do mundo. O grande número de guerras, com o aparecimento de heróis e necessariamente vilões, transformou o que seria para os estudiosos um frio relato de fatos em histórias capazes de prender a atenção dos leitores.

Com o advento da imprensa – e, porque, com a publicação de livros – o povo procurava algo de novo para ler em busca de novos conhecimentos, esse relato de aventuras foi sofrendo modificações. Deixou de ser a narrativa pura e simples de uma lenda ou de um fato histórico tratado, é bem verdade, com relativa liberdade, e saiu à procura de outros caminhos (ALBUQUERQUE, 1979, p. 2).

Dessa forma, para esse autor:

Com o advento do raciocínio e da lógica, o romance de aventuras se transformou, após um longo e algumas vezes confuso período evolutivo, no que chamamos hoje de romance policial (ALBUQUERQUE, 1979, p. 1).


Romance enigma

Edgar Allan Poe inaugura esse gênero literário em 1841 com um conto chamado The murders in the rue Morgue, no qual o detetive Auguste Dupin desvenda a misteriosa morte de duas mulheres. Além da violência desmedida verificada na cena do crime, há circunstâncias aparentemente inexplicáveis: nenhum valor foi roubado; os aposentos onde aconteceram os crimes estavam trancados pelo lado de dentro; não se via maneira como o criminoso pudesse escapar à cena do crime sem ser visto, já que os aposentados ficavam em andar superior cujo acesso eram janelas que, ordinariamente, ficavam fechadas; os vizinhos que correram em socorro das mulheres ao ouvirem seus gritos, apesar das diferentes nacionalidades, não foram capazes de identificar nem o conteúdo nem, sequer, o idioma do agressor. Aplicando um raciocínio analístico, Dupin desvenda a trama: o assassino é um orangotango, criatura com força suficiente para perpetrar tal violenta agressão, além de hábil para escalar o prédio onde moravam as mulheres.

Nessa narrativa primordial, Poe estabeleceu o paradigma da literatura policial em que o foco não se encontra no crime em si, mas no esforço de solucioná-lo:

  • o detetive tem habilidades extraordinárias de observação e raciocínio, as quais lhe permitem desvendar o problema com o mínimo de ação;
  • o narrador é amigo do detetive e acompanha seu trabalho, de modo a dar um testemunho ao leitor quanto aos passos da investigação, mantendo, assim, o leitor em suspense.

A fórmula literária criada por Poe levou à construção do romance enigma, também chamado de clássico ou tradicional. Diversos autores incorporaram dessa fórmula para criar detetives memoráveis. Sherlock Holmes é, sem dúvida, a personagem mais famosa da literatura policial. Sua primeira investigação foi relatada em A study in scarlet (1887) e, desde então, tem sido revivido em adaptações literárias e em filmes cinematográficos de grande sucesso.

Outro detetive que caiu no gosto da massa foi Hercule Poirot, criado por Agatha Christie que, em seus 80 romances, também deu vida a outros detetive como Miss Marple e Parker Pyne.

Segundo Todorov, observa-se uma dualidade na arquitetura do texto de literatura policial, consistente na existência de duas histórias. A primeira delas é a história do crime; a segunda é a história da investigação.

Podem-se ainda caracterizar essas duas histórias dizendo que a primeira, a do crime, conta “o que se passou efetivamente”, enquanto a segunda, a do inquérito, explica “como o leitor (ou o narrador) tomou conhecimento dela” (TODOROV, 2011, p.95).

Na história da investigação quase não há ação; no entanto é a que mais interessa ao leitor. Configuram-se, nela, os três elementos que envolvem o leitor, fazendo com ele participe  literalmente da história: a ludicidade, a competição e a conformidade moral.

ludicidade revela-se no fato de o texto de literatura policial configurar-se como uma espécie de jogo em que o leitor é desafiado a resolver, por si mesmo, o enigma presente na primeira parte da história. Esse processo se dá na medida em que ele pode, por meio do discurso do narrador memorialista, que é, de certa forma, um auxiliar do detetive, identificar pistas e acompanhar os movimentos que o herói (o detetive) faz no encalço do anti-herói (o criminoso).

Dessa ludicidade emerge a competição entre leitor e detetive, uma vez que o primeiro, desprovido dos recursos de racionalidade e observação que caracterizam o herói, envolve-se na história construindo hipóteses para desvendar o mistério juntamente com o detetive – ou, pelo menos, busca ver confirmadas suas suspeitas ao final da narrativa.

conformidade moral evidencia-se no fato de o herói – representante do bem – sempre identificar o criminoso e entregá-lo às sanções da sociedade para que se faça justiça. Isso significa que o detetive contribui para que se restabeleça a ordem social, de modo que o mal seja punido. Nesse sentido, a investigação representa a eterna luta entre o bem o mal, com a garantia de que o bem vencerá ao final.

A literatura policial é um gênero dinâmico, tanto que sua estrutura adaptou-se às novas contingências socioculturais e históricas. O surgimento do romance noir foi a principal mostra de sua versatilidade. Verifica-se que esse gênero literário é, ainda hoje, bem-sucedido em termos editoriais e comerciais, o que atesta que o gosto do público pelo enigma não arrefeceu.

 

Referência

ALBUQUERQUE, Paulo de Medeiros e. O mundo emocionante do romance policial. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979.
ARAÚJO, Ricardo. Edgar Allan Poe: um homem em sua sombra. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2002.
LOURENÇO, Rodolfo; MOTTA, Me Taíse. A contribuição de Edgar Allan Poe ao conto. Disponível em:http://www.unisa.br/graduacao/humanas/letra/alunos/a-contribuicao.pdf. Acesso em: 09 jan. 2013.
MASSI, Fernanda. O romance policial do século XXI: manutenção, transgressão e inovação do gênero. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2011.
POE, Edgar Allan. Assassinatos na rua Morgue e outras histórias. São Paulo: Saraiva, 2009.
REIMÃO, Sandra. Literatura policial brasileira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
TODOROV, Tzvetan. Tipologia do romance policial. In TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2011.

 

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