Palavras de agressor ofendido

Qualquer que seja a defesa que apresentes, eu não deixarei de comer-te.
Esopo em “O lobo e o cordeiro”

 

Gilberto Carvalho concedeu entrevista exclusive ao site do UOL, após o anúncio da reeleição de Dilma Rousseff, em 26 de outubro de 2014. Conquanto seja Ministro-chefe da Secretaria-geral da Casa Civil da Presidência da República, sua fala foi partidária, militante até, uma vez que marcou posição em relação ao comportamento da imprensa no período de campanha eleitoral. Nesse período, jornais e revistas não economizaram críticas nem ao PT nem a Dilma e muito menos ao seu (des)governo; ao mesmo tempo, noticiavam a falta de transparência nas informações, o comportamento errático e agressivo de Dilma e a blindagem dos seus aliados implicados na CPI da Petrobras e nas investigações da Operação Lava Jato.

É curioso: quem não tenha acompanhado a campanha ou o noticiário nacional poderia ser levado a crer que o partido do ministro fosse a aposição, vilmente achacada por mentiras, insinuações e distorções da propaganda política. Não é. O Gilberto Carvalho é petista e ministro de Dilma Rousseff.

Suas palavras, por si mesmas, deixam entrever sua concepção sobre o papel da imprensa. Sobretudo, revela suas metas de trabalho para o próximo mandato: cercear o jornalista nacional. Assim, deverá se extinguir o jornalismo crítico, restando aos meios de comunicação de massa a função de divulgação de “notícias oficiais”.

UOL - O segundo governo da presidente Dilma Rousseff vai ter uma política diferente em relação aos meios de comunicação ou vai manter o mesmo discurso crítico permanente e a mesma política?

Gilberto Carvalho - Eu faço uma autocrítica nossa, dos nossos erros, e atribuo à questão da comunicação parte também dos problemas que nós enfrentamos.  Ninguém mais do que nós vai defender permanentemente a liberdade de imprensa. A liberdade de imprensa é sagrada, e nesses 12 anos não houve um único gesto do nosso governo efetivo que contrariasse a liberdade de imprensa. Ninguém foi tão enxovalhado como nós fomos ao longo desses anos, e agora esse final de campanha, esse episódio que eu mencionei, lamentável, só mostra um pouco disso. Não vai haver nenhuma tentativa da presidente Dilma de tolher a liberdade de imprensa, de maneira alguma.

O que nós queremos é sentar com vocês, com gente séria da imprensa, para a gente fazer uma análise de como é que o Brasil está sendo passado para as pessoas, de como a realidade é traduzida efetivamente. A meu juízo, o excesso de editorialização, de adjetivação e o colunismo que acabou ganhando um peso enorme na imprensa brasileira têm feito, na minha opinião, um estímulo a esse ódio que nós vimos nos últimos tempos.

Felizmente não [sic] é todos, eu até destaco aqui particularmente a Folha, que eu acho que é um periódico dos mais equilibrados, mas infelizmente há jornais que se transformaram em panfletos nessa campanha. É isso que nós não vamos deixar de criticar. Acho que, em prol da própria liberdade de imprensa, da sua respeitabilidade, e para que a gente não ouça coros como esse que nós ouvimos aqui é que nós temos que trabalhar na sociedade brasileira numa espécie de repactuação, para que a gente possa ter uma imprensa sempre livre, cada vez mais livre, mas, ao mesmo tempo, que haja um equilíbrio entre a crítica adequada e aquilo que estimula o ódio, como, eu insisto, aconteceu nos últimos tempos, particularmente nessa campanha.

UOL - O senhor não reconhece que há matéria-prima para que o governo seja, para usar a sua palavra, enxovalhado? O governo não se deixou enxovalhar ao permitir que ocorresse o que está ocorrendo na Petrobras? Os fatos não conspiram contra o governo?

Gilberto Carvalho - Ninguém mais do que nós tem feito autocrítica. Nós temos reconhecido que, infelizmente, o nosso partido acabou se assemelhando a outros partidos, a corrupção infelizmente entrou dentro de nós, é verdade. O que não dá para aceitar é a gente ser considerado como aqueles que inventaram a corrupção no Brasil, é absolutamente desmedida a maneira como nós fomos tratados nesse tempo, é como se a corrupção tivesse sido inventada por nós. Quando, na verdade, o que nós fizemos, embora tendo caído em erros, é verdade isso, eu não tenho como negar, não tenho por que negar, mas é como se o passado todo fosse um passado limpo nesse país e nós é que trouxemos para a cena da política a corrupção, quando na verdade, o que nós fizemos, foi ter a coragem de fazer a investigação e cortar na própria carne.

Disponível em: http://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/10/27/tratamento-desmedido-contra-o-pt-na-imprensa-incita-o-odio-diz-ministro.htm. Acesso em: 28 out. 2014.

 

Na pergunta dos blogueiros do UOL, já é possível entrever que a relação do governo e do partido governista com a imprensa nunca foi serena. O emprego do verbo “manter” é o maior indício da combatividade governamental. Portanto, nos termos da pergunta − que o entrevistado não contesta –, a postura belicosa é atribuída ao governo, e não à imprensa.

A resposta, por sua vez, está carregada de um autoritarismo que nega a liberdade de imprensa. Então, as críticas devem ser moderadas, mesmo quando o governo sonega informações, quando tem seus principais nomes nas páginas policiais e quando conduz uma campanha eleitoral agressiva?

Estas palavras são especialmente reveladoras:

(…) em prol da própria liberdade de imprensa… que nós temos que trabalhar na sociedade brasileira … para que a gente possa ter uma imprensa … cada vez mais livre, mas, ao mesmo tempo, que haja um equilíbrio entre a crítica adequada e aquilo que estimula o ódio, como, eu insisto, aconteceu nos últimos tempos, particularmente nessa campanha.

O uso do conectivo “mas” é significativo, pois sinaliza o reconhecimento do próprio locutor quanto à oposição existente entre as proposições consecutivas. Quem defende a liberdade de imprensa não admite um “mas”. Em uma sociedade democrática, a veiculação de informações caluniosas ou incorretas está sujeita aos rigores da lei, e não ao escrutínio do estado.

As declarações do ministro-militante são tenebrosas, já que, justiça seja feita, nelas predomina o raciocínio partidário. Ele assume que imprensa que ofendeu o seu partido terá que calar.

Observe-se que a discussão em torno do que seja a “crítica adequada” não será travada com o segmento contestador da imprensa, mas com aquele mais dócil e condescendente com a postura partidário-governamental. A opinião de quem contesta o governo não interessa ao [partido do] Ministro da Justiça.

A convicção de que o papel da imprensa é noticiar apenas é um mito – aliás, bem explorado no período ditatorial. Se quem diz o que pensa pode ser perseguido, punido ou silenciado, não há liberdade.

Na fábula “O lobo e o cordeiro”, já foi enunciado esse mesmo ódio do algoz contra a vítima que ousou resistir a suas investidas.

O lobo e o cordeiro

Um lobo, ao ver um cordeiro bebendo de um rio, resolveu utilizar-se de um pretexto para devorá-lo. Por isso, tendo-se colocado na parte de cima do rio, começou a acusá-lo de sujar a água e impedi-lo de beber. Como o cordeiro dissesse que bebia com as pontas dos beiços e não podia, estando embaixo, sujar a água que vinha de cima, o lobo, ao perceber que aquele pretexto tinha falhado, disse: “Mas, no ano passado, tu insultaste meu pai”. E como o outro dissesse que então nem estava vivo, o lobo disse: Qualquer que seja a defesa que apresentes, eu não deixarei de comer-te”.

A fábula mostra que, ante a decisão dos que são maus, nem uma justa defesa tem força.

ESOPO. Fábulas completas (livro eletrônico). 1ª ed. São Paulo: Editora Moderna, 2012. s.p.

As declarações do ministro-militante são uma afronta tanto à democracia e quanto à inteligência do brasileiro. Esse tipo de comportamento demonstra por que não se investe seriamente em educação no Brasil: para que o cidadão não seja capaz de ler a infâmia no discurso das autoridades.

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