Discurso dos ladrões ao galo (Esopo)

Impressiona a forma como a ficção pode exprimir verdades de maneira mais clara e contundente do que qualquer argumentação poderia. Dentre todos os gêneros da ficção, a fábula realiza essa função de forma excepcional!

Aproveitando essa função lúdico-persuasiva, trago uma fábula de Esopo chamada Os ladrões e o galo. É pequena e é simples. Digam-se se não tem lógica?

 

Os ladrões e o galo

Ao invadirem uma casa, alguns ladrões não encontraram nada exceto um galo. Pegaram-no e saíram. O galo, estando para ser morto por eles, pôs-se a suplicar que o deixassem, dizendo-se útil aos homens, por acordá-los de madrugada para o trabalho. Os ladrões, tomando a palavra, disseram: “Mas por causa disso, então, é mais importante ainda que te matemos, pois, acordando os homens, tu nos impedes de roubar.

A fábula mostra que aquilo que mais contraria os maus é o que serve às pessoas de bem.

 

Essa fábula oferece-nos subsídios para compreender o discurso do vilão, na medida em que alerta para seu propósito sempre contrário ao das pessoas de bem. Traduzindo: o que beneficia a população ordeira é justamente o que prejudica o criminoso. Portanto, lei, ordem, organização e respeito, tudo isso é avesso às intenções criminosas.

Transportando para a realidade brasileira a tese da fábula (que me parece muito lúcida), vemos que estamos sendo ludibriados pelas ideologias políticas e por certas crenças sociais que pregam – e praticam – uma cultura do benefício e perdão à marginalidade. Perdoai-os, cidadãos, que eles não sabem o que fazem! Existem benefícios demais na lei para impedir que o criminoso cumpra sua pena. Há restrições demais ao trabalho policial – inclusive, há muitos entraves estruturais, como a desvalorização moral e profissional dessa classe cuja principal função é garantir a aplicação da lei e a existência da ordem. É como se a condição de desfavorecido (seja lá por que for) bastasse para eximir as pessoas da responsabilidade pelos atos que praticam.

Tem lógica um camarada roubar “por necessidade” e, ao mesmo tempo, ser incapaz de trabalhar? Faz sentido que esses maconheiros, craquentos e cheiradores digam-se doentes, quando não há intempérie que os impeça de correr atrás de quem supra o seu vício? Então, a título de desculpar esse tipo de gente, que só traz prejuízo para a coletividade, criam-se conceitos como “menor potencial ofensivo”, “usuário”, “princípio da insignificância” e “culpa da vítima”.

A linguagem mascara a falta de coragem de assumir que há um certo e um errado em cada situação. Não sendo possível agradar a todos, é preciso escolher. Parece bom senso que se escolha o que vem em benefício da coletividade, e não do indivíduo. Parodiando Winston Churchill*, bem poderíamos dizer que entre a guerra e a desonra, temos escolhido a desonra e, por isso, teremos a guerra. As vantagens dadas à criminalidade só a fazem crescer e assumir posições cada vez mais ousadas, mais aviltantes, mais opressoras e mais violentas.

Não é à toa que os criminosos estão cada vez mais “folgados” e os crimes mais violentos.

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* Quando Inglaterra e França fizeram acordo com Hitler de não declarar guerra à Alemanha após a invasão da Polônia, Churchill, que ainda não era o Primeiro-ministro, considerou que a covardia dos aliados dava um incentivo moral para que o Primeiro Reich se sentisse invencível.

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REFERÊNCIA

ESOPO, Fábulas completas. Tradução direta do grego, introdução e notas por Neide Smolka. Ed. Moderna. Disponível em e-book.

 

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