Poema em linha reta (mais humano do que vil)

Na intuito de descrever e bem analisar o discurso do vilão, é importante definir os termos que definem e identificam esse objeto de interesse, a fim de argumentar com propriedade e clareza sobre eles, em reverência ao modelo retórico baseado na dialética socrática. Vamos, então, ao significado do termo vilão.

O dicionário Houaiss consigna diversos significados dessa palavra:

adj.s.m. (sXIII) 1  que ou o que reside em vila <homem v.> <fazendeiros e vilãos2  que ou o que não pertence à nobreza; plebeu <origem v.> <a revolução dos v.3  fig. que ou aquele que é indigno, abjeto, desprezível  adj. 4  fig. rústico, rude, grosseiro  s.m. 5  camponês medieval que trabalhava para um senhor feudal, mas tinha o direito de abandonar a gleba 6  o personagem que representa o lado mau, nas peças teatrais, novelas e filmes 7  SC dança com utilização de bastões, percutidos por entrechoque 8  MG PE m.q. pau de fita 9  m.q. faveiro (Platypodium elegans)  gram a) fem.: vilã, viloa b) pl.: vilães, vilãos, vilões  etim lat.vulg. *villánus ‘habitante de vila, casa de campo’  sin/var ver sinonímia de canalha e pulha

Como se vê, a palavra é polissêmica. Nota-se que apresenta acepções neutras e pejorativas: do “homem que reside em vila” ao “que é indigno, abjeto, desprezível” – esta última associada com o conceito literário que identifica a personagem que representa o mal. Haveria conexão entre essas acepções?

É vulgo e folclórico que a acepção pejorativa da palavra tenha se fixado durante a Idade Média, em razão da oposição entre nobreza e burguesia. Os nobres, considerando-se guardiães dos valores aristocráticos, opunham-se aos habitantes das primeiras cidades medievais – gente que não trabalhava a terra, mas vivia da venda de produção, gente que talvez tivesse dinheiro, mas não propriedade e tradição. Era um embate sociocultural que se tornou simbólico ao longo dos séculos.

Etimologicamente, o termo vil origina-se do latim vílis, língua em que significava “que é de baixo preço, barato”. Não há dúvida de que esse termo tenha gerado o termo vilão com seu significado pejorativo; em contraste, a acepção neutra advém do latim vulgar villánus, habitante de vila, casa de campo.

O site Origem da palavra – site de etimologia registra a controvérsia e confirma nossa hipótese:

Parabéns pelo excelente trabalho. Estou em uma pesquisa em busca das diversas apropriações da palavra “villa”, particularmente, sua relação com as palavras “vilão” e “vil”. Não tenho certeza de alguma origem comum para estes termos, por isso peço ajuda. Muito grato pela atenção,
Com os melhores cumprimentos. Rafael Koury | Niterói, RJ 14 de junho de 2011

Resposta: Gratos pelo elogio, é sempre bom receber.

1) Do Latim VILLA, “casa de campo”, propriedade que todo romano abastado tinha nos arredores de Roma. A partir de certa altura, passou a designar “pequeno aglomerado de vivendas”.

2) De VILLANUS, “trabalhador rural”, derivado de VILLA. Dado o baixo nível socieconômico deles, muitas vezes eram acusados de malfeitorias.

3) De VILIS, “vulgar, grosseiro, de baixo preço”, de origem desconhecida (Disponível em: http://origemdapalavra.com.br/palavras/vilao/. Acesso em: 10 set. 2013.).

Portanto, não há fundamento linguístico-etimológico para crer no parentesco entre os termos que são, hodiernamente, homônimos, conquanto seja possível, conforme se explica no site, que desde a Antiguidade Clássica houvesse associação entre os trabalhadores rurais e o cometimento de pequenos delitos. A mesma associação poderia ter sido feita na Idade Média – basta lembrar Robin Wood, cujo status de vilão é fragilizado pelos fins que o levam a cometer crimes: a distribuição (compulsória) da renda alheia. Em ambos os contextos, nota-se a oposição entre nobreza e plebe. Dessa oposição advém a práxis do emprego dos adjetivos nobre e pobre com os sentidos apreciativo e depreciativo, respectivamente, os quais estão relacionados a valores morais, e não só a posses materiais.

Em literatura, o vilão é a personagem que personifica o mal — esse é o significado que nos interessa. Origina-se da palavra vil, o que determina seu significado pejorativo, relacionado metaforicamente à ideia de baixo valor moral; portanto, identifica o indivíduo cujo comportamento é reprovável do ponto de vista social (ético e moral). E não se o confunda com o anti-herói, que é um protagonista atrapalhado e incapaz de interferir positivamente em seu destino, apesar de não atuar propositalmente para prejudicar alguém ou para beneficiar-se em detrimento de outrem.

O vilão é o antagonista.

A leitura do Poema em linha reta permite vislumbrar essa diferença, dado a ênfase com que emprega a palavra vil.

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, / Eu tantas vezes irresponsavelmente parasita, / Indesculpavelmente sujo, / Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, / Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, / Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, / Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,  / Que tenho sofrido enxovalhos e calado, / Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; / Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, / Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, / Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, / Eu, que, quando a hora do soco surgir, me tenho agachado / Para fora da possibilidade do soco; / Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, / Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo  / Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana / Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; / Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! / Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. / Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?  /Ó príncipes, meus irmãos, / Arre, estou farto de semideus! / Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado, / Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca! / E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, / Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? / Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, / Vil no sentido mesquinho e infame de vileza (PESSOA, 1980, p. 268-269)

Nesse poema, o vil, por contraste ao ridículo, refere-se ao comportamento desastrado de quem tem apanhado da vida, sem conseguir autoconfiança e estabilidade emocional suficientes para não se acovardar diante de seus semelhantes. Nem se comparada ao comportamento criminoso, de quem engana, rouba e/ou mata pelo simples prazer de fazê-lo, considerando ter mais direito à vida do que os demais. O vilão tem autoestima elevada: concebe-se como um ser digno de privilégios e favores, a despeito dos prejuízos que isso cause aos outros. Seu caráter é, por todos os aspectos, reprovável, já que ele busca o bem somente para si e, de preferência, em prejuízo de quaisquer outras pessoas.

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Na prática, a vileza manifesta-se em diversos comportamentos humanos, mas seu cúmulo é, sem dúvida, o psicopata. Este tem a vilania como princípio e modo de vida.

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REFERÊNCIA

INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Objetiva, 2009.

MESQUITA, Samira Nahid de. O enredo. 4. ed. São Paulo. Ática, 2006. (Coleção Princípios).

PESSOA, Fernando. O eu profundo e os outros eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

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