Verossimilhança em vez da verdade

(…) em cada um de nós há dois princípios que nos governam e conduzem, e nós os seguimos para onde nos levam: um é o desejo inato de prazer, outro a opinião que pretende obter o que é melhor.

 

Fedro, de Platão, é uma obra que oferece valiosos subsídios para a análise da estrutura retórica do discurso e, portanto, contribui para que investiguemos e descrevamos as estratégias de persuasão e engodo utilizadas pelo vilão.

Nesse diálogo, o mancebo Fedro lê para Sócrates um discurso escrito por seu amante cujo tema é o amor. Lísias defende que é melhor prestar favores a alguém que não se ama do que ao amante apaixonado, pois este, depois de saciado, arrepende-se das vantagens que ofereceu no intuito da conquista.  Em resposta, o filósofo formula consecutivamente outros dois discursos nos quais argumenta, inicialmente, ser o amor um delírio que nasce de uma moléstia da alma (o sentimento de posse e o prazer egoísta) e, depois, um estado divino (delírio inspirado pelos deuses para o bem dos amantes). Ou seja, em primeiro lugar concorda com Lísias na opinião, mas diverge dele nos fundamentos; em seguida, contradiz Lísias e a si próprio, com opinião e argumentação diversas. Dessa forma, Sócrates mostra que é possível formular discursos convincentes que defendam posições contraditórias sobre o mesmo tema.

Para explicar o processo segundo o qual um discurso pode passar da condenação ao elogio, Sócrates imiscui-se no campo da oratória e da retórica, reverenciando a dialética, movimento cognitivo-discursivo que permite ao filósofo caminhar de ideias mais simples para as mais gerais, de forma a atingir os princípios do objeto/matéria analisada. Na visão do filósofo, a retórica constitui “a arte de dirigir as almas por meio de palavras” (PLATÃO, 2007, p. 100). Seu intuito é ensinar a Fedro que a retórica que não se fundamenta na filosofia (no conhecimento da verdade) não é digna de ser chamada de arte. No ensejo, instrui o mancebo a respeito da forma correta de conduzir o pensamento retórico, propondo basicamente que o orador persiga a verdade de forma dialética. Para tanto, o orador deverá desenvolver (em razão da natureza, do saber ou do exercício) três habilidades básicas, quais sejam:

  • reconhecer a natureza da alma de sua plateia;
  • distinguir os gêneros do discurso* em suas diferentes qualidades;
  • discernir o momento adequado para utilizar cada forma de argumentação.

Sócrates pondera que é possível construir discursos convincentes e persuasivos que se afastam da verdade. Um orador perspicaz reconhece a natureza da alma de sua plateia, reconhece os gêneros do discurso que podem convencê-la. Por isso sabe, entre outras coisas, que as pessoas dão mais crédito ao que é provável do que ao que é verdadeiro.

SÓCRATES: Dizem os retóricos que não é necessário considerar a coisa de modo tão solene nem fazer tantos rodeios. Já no começo da nossa conversa discutimos o seguinte ponto: para ser bom orador não é necessário conhecer a verdade a respeito do que é bom e justo nas ações que os homens praticam, que da sua natureza que por educação. Nos tribunais, portanto, ninguém se preocupa com o conhecimento da verdade, mas só se cuida de saber o que é verossímil. Em consequência, quem quer fazer discursos com arte deve dirigir a atenção ao que é provável. Muitas vezes, numa acusação ou numa defesa, não convém relevar o que aconteceu de fato,  caso não seja verossímil, mas só se deve dizer o que parece ser verdadeiro. Durante o discurso, o orador deve atentar ao que é convincente e deixar de lado a realidade. Tais são as regras que se devem observar nos discursos, e nisso consiste toda a arte.

(…) quando um homem fraco, mas corajoso, ataca um homem forte, mas covarde, rouba-se a túnica ou qualquer outro objeto e ambos são conduzidos ao tribunal, nenhum deles deve dizer a verdade; o covarde deve declarar que o outro não estava só quando o atacou; o corajoso, pelo contrário, tratará de provar que os dois estavam sós e acrescentará: “como ousaria eu atacar tal homem?” O outro, naturalmente, para não se confessar covarde, inventará novas mentiras, que confundirão o acusado (PLATÃO, 2007, p. 116).

Conclui:

(…) a verossimilhança domina o espírito da grande massa pela semelhança que tem com a verdade (PLATÃO, 2007, p. 170).

Conhecedores intuitivos dessa máxima do raciocínio humano, os vilões, tanto quanto os oradores da Grécia antiga, sabem da predisposição das pessoas para aceitarem como verdade o que é verossímil. Assim, em seus discursos narram convenientemente fatos plausíveis e buscam estabelecer coerência entre todos os “fatos”, de modo a conquistar a confiança de sua plateia – em geral, vítimas.

Nessas circunstâncias, valem para todos dois conselhos de Sócrates a Fedro: não desdenhar da palavra hábil e perseguir a verdade para além da verossimilhança. Os grandes detetives da literatura policial eram, em certo sentido, socráticos, uma vez que a mera aparência não lhes bastava. Auguste Dupin, por exemplo, a respeito das notícias publicadas em jornal a respeito dos assassinatos da Rua Morgue, explicou:

Caíram todos no erro comum e grosseiro de confundir o incomum com o abstruso. Mas é justamente através destes desvios do plano ordinário que a razão se conduz, se é que existe algum caminho, em sua busca da verdade. Em investigações como esta que estamos agora realizando, não se deve tanto perguntar “o que ocorreu”, como “o que ocorreu que nunca havia ocorrido antes” (POE).

Em Boscombe valley mistery, Holmes explicava: “Nada é mais enganoso que um fato óbvio (…)” (DOYLE,2010, p. 176).

Os conselhos socráticos não são garantia de proteção contra os vilões, mas são um bom começo para nos alertar quanto aos ardis dos criminosos.

 

* O conceito de gênero do discurso em Platão não coincide com a definição bakhtiniana. Em Platão, significa o tipo de argumentação adotada pelo orador.

 

Referência

DOYLE, Arthur Conan. As aventuras de Sherlock Holmes. 2. ed. edição definitiva, comentada e il.. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

PLATÃO, Fedro. São Paulo: Editora Martin Claret Ltda., 2007.

POE, Edgar Allan. Assassinatos na rua Mogue e outras histórias. L&PM Pocket. Disponível em e-book.

 

 

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