Desconcerto do mundo

Entre as temática camonianas, o desconcerto do mundo destaca-se não só pela recorrência, mas pelo genuína expressão de angústia, pelo sentimento de inadequação do eu-lírico frente à sociedade cheia de contradições e injustiças. O mundo é um lugar que hostiliza a sensibilidade humana.

Esta esparsa é emblemática:

Os bons vi sempre passar / no mundo graves tormentos; / e, para muito mais m’espantar, / os maus vi sempre nadar / em mar de contentamentos. / Cuidando alcançar assim / o bem tão mal ordenado, / fui mau, mas fui castigado: / Assi que, só para mim / anda o mundo concertado (CAMÕES, 1999, p.110 )

Interessa notar que esse poema contém o discurso de um vilão, que quer mostrar-se uma uma vítima dos desacertos mundanos. Sabe aquele camarada que sempre agiu corretamente, mas, vendo todo mundo fazer errado e se dar bem, resolve convencer-se de que “o errado está certo”?

O desconcerto, então, manifesta-se em dois aspectos do discurso do discurso do eu-lírico. Primeiro: os bons têm se dado mal, enquanto os vilões se dão bem. Isso é motivo de espanto. Segundo: quando decide realizar algumas picaretagem, não obtém sucesso — o malfeito acaba descoberto e o eu-lírico, punido. Exatamente o contrário do que ele tem verificado acontecer. Por fim, ele lamenta-se: “só para mim / anda o mundo concertado”.

Esse lamento se não é universal, soa bem brasileiro. “Todo mundo desrespeita a lei”: político profissionais (principalmente eles), marginais contumazes, empresários ricaços, pobres ignorantes, boyzinhos e playboyzinhos; mulheres bonitas e mães de família sonsas. Os ricos não serão punidos porque são ricos; os pobres não serão punidos porque são pobres-coitados, nascidos de famílias desestruturas e com  muitos problemas sociais… Resumindo: “dá nada pra nós”. Em contraste, se você pensa em parar onde não deve só para apanhar (rapidinho) uma encomenda, já levou uma multa. Cogitou de arranjar umas notas para pagar menos Imposto de Renda? Já caiu na malha fina. Atrasou-se uma vez para uma consulta? O médico já foi embora, porque tinha um compromisso! Ele nunca atendeu você no exato horário marcado, mas não adianta explicar que você ficou preso no trânsito… Já era: perdeu a caminhada e a consulta!

Com essa postura, é dizer “meu pão sempre cai com a manteiga para baixo”. Isso é pessimismo, autocomiseração ou simples tentativa fajuta de justificar  alguma inequívoca picaretagem?

O lamento esconde uma argumentação perniciosa. Quem age deliberadamente de forma inescrupulosa sabe que está sujeito a alguma punição. Arrisca-se, portanto. Quando o castigo chega, quer negar infantilmente a relação causa ↔ efeito, sob a desculpa de que outros não foram punidos ao cometerem a mesma falha.

Que perversidade pensar que a punição deve chegar somente aos outros, ou pelo menos a eles primeiro! Nós, quando erramos, mesmo que propositalmente e em causa própria, merecemos perdão? Devemos?

Nenhum vilão é vítima das circunstâncias. Só é inocente até prova em contrário — e que não tarde a justiça!

Referência

CAMÕES, Luís de. Para tão longo amor tão curta a vida: sonetos e outras rimas. São Paulo: FTD, 1998. (Coleção grandes leituras).

RODRIGUES, Antônio Medina. Sonetos de Camões: roteiro de leitura. São Paulo: Ática, 1993.

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