O discurso de Iago: a mais pura vilania

Dramaturgo e poeta, William Shakespeare (1564-1616) nasceu e morreu em Stratford-upon-Avon, Inglaterra. Escreveu obras memoráveis, obtendo reconhecimento e fortuna em vida. Dentre suas 38 peças teatrais, distinguem-se tragédias (“Romeu e Julieta” e “Macbeth”, por exemplo), comédias (“A megera domada”, “A comédia dos erros” e outras) e tragicomédias (“Péricles”, “Cimbelino”, “Conto de inverno” e “A tempestade”). Com formato de tragédia, há várias peças com motivo histórico, como “Ricardo III”, “Henrique IV”, “Henrique V” e “Júlio Cesar”.

Shakespeare encenou muitas de suas peças, uma vez que, na época, as companhias teatrais funcionavam como cooperativas com 10 a 15 membros, que podiam desempenhar mais de uma função, com participação proporcional nos lucros. Seus ganhos financeiros correspondiam, portanto, à sua atuação como dramaturgo e como ator.

“Otelo, o mouro de Veneza” estreou em 1604, após a morte da Rainha Elizabeth II. Seu sucessor, Rei James, contratou em caráter permanente a companhia de Shakespeare, Globe Teatre, que já havia construído uma casa de espetáculos à margem do Tâmisa. Trata-se de tragédia motivada pelo ciúme. Apesar de o casal de amantes ter superado o preconceito de forma corajosa e convicta, sua relação acaba envenenada pelo “monstro dos olhos verdes que zomba da carne com que se alimenta” (SHAKESPEARE, 2019, p.77).

A história passa-se inicialmente em Veneza, onde Otelo desfruta do reconhecimento do Doge e do povo devido à sua capacidade militar. Ele vencera os turcos otomanos diversas vezes e, por isso, gozava de prestígio. A cor de sua pele não o impedia de receber honrarias da nobreza e homenagens do povo. Contudo, mostrou-se um empecilho para que ele esposasse uma dama daquela sociedade: a jovem e bela Desdêmona, filha de Brabâncio.

“Digo apenas o que ela é: tão delicada nos trabalhos de agulha, admirável ao praticar sua música… oh, com seu canto ela encanta um urso selvagem…, e consegue ser erudita e inteligente, e imaginativa e original” (SHAKESPEARE, 2019, p. 107)

Desdêmona e Otelo apaixonaram-se e casaram-se secretamente. A revelação do ocorrido ao pai da dama decorreu de ressentimentos pessoais, de modo que à denúncia acresceu-se calúnia. Nesse momento, o protagonista foi descrito de forma pejorativa por dois detratores: Rodrigo e Iago. O primeiro desejava esposar a dama; o segundo ressentia-se de ter sido preterido pelo mouro para o posto de tenente. Segundo eles, Otelo era “ladrão”, “bode preto”, “o diabo” e “cavalo berbere” (SHAKESPEARE, 2019, p. 12-13).

Revelado o enlace de forma vil e tendenciosa, Brabâncio conclui que Otelo recorrera a feitiçaria para encantar sua filha. Afinal:

“Quando é que uma donzela tão afável, linda e feliz, tão avessa ao casamento que chegou a recusar os melhores, mais ricos e elegantes partidos de nossa nação, quando é que ela teria abandonado seu pai e protetor, correndo o risco de ser motivo de zombaria geral, para aninhar-se no peito negro de uma coisa como tu… figura que dá medo, e não prazer? Que o mundo me julgue, mas pergunto se não é indecente aos sentidos e ao entendimento que tenhas praticado contra ela feitiços nojentos, abusando de sua delicada juventude com drogas ou minerais que debilitam os movimentos” (SHAKESPEARE, 2019, p.19-20).

A acusação de feitiçaria cedeu diante da Câmara do Conselho em razão do testemunho da dama apaixonada e da reputação do noivo, mas não impediu que Brabâncio renegasse a filha e fizesse severa advertência:

“Mantém-na sob tuas vistas, Mouro, se é que tens olhos para enxergar. Ela enganou o próprio pai, e pode vir a fazer o mesmo contigo” (SHAKESPEARE, 2019, p. 32).

A atormentar a vida dos protagonistas e manipular maquiavelicamente os demais personagens para o mesmo fim, há o vilão Iago, muitas vezes fazendo ressoar a advertência ressentida de Brabâncio nos ouvidos do general mouro. Seu objetivo era vingar-se de Otelo e assumir o posto de que se acha merecedor inconteste, porque nobres da cidade, pessoalmente empenhados em vê-lo ocupar essa posição, falaram em seu favor. Porém, maior que a disposição de seus protetores, era o apreço que Iago tinha a por si mesmo:

“E, pela boa-fé humana, conheço o meu valor: não sou merecedor de um posto mais baixo” (SHAKESPEARE, 2019, p. 9).

“(…) Esta é a praga do serviço militar: as promoções acontecem por recomendação e por simpatia, e não pela velha graduação, onde sempre o segundo herda o posto do primeiro. Agora, meu senhor, seja o senhor mesmo juiz desta questão: posso eu, com justiça, ser obrigado a gostar do Mouro?” (SHAKESPEARE, 2019, p. 10).

Ao longo de toda a trama, o comportamento do alferes foi perverso, pois ele manipulou e enganou a todos, fingindo amizade e presteza. Destacam-se os seguintes episódios de sua atuação sorrateira e operosa:

  • Logo após denunciar o matrimônio da filha a Brabâncio (Ato 1º, cena I), Iago aproximou-se de Otelo (Ato 1º, cena II), narrando-lhe ter ferido um homem que se pronunciava “com termos vis e provocativos contra a honra” do seu general (SHAKESPEARE, 2019, p. 16).
  • Para convencer Rodrigo de que a trama contra Otelo favoreceria sua aproximação com Desdêmona (Ato 1º, cena III), Iago demoveu-o do suicídio e incito-o a obter dinheiro para ir a Chipre onde agiriam em parceria, dizendo: “Meus motivos têm raízes no coração; os seus têm tanta razão de ser quanto os meus. Vamos agir em conjunto na nossa vingança contra ele. Se você conseguir presenteá-lo com um par de chifres, estará presenteando a si mesmo com um prazer e a mim com um divertimento” (SHAKESPEARE, 2019, p. 35).
  • Iago incitou Cássio a buscar ajuda de Desdêmona para restabelecer sua relação com Otelo (Ato 2º, cena III) e arranjou a situação de modo que o ex-tenente parecesse realizar um encontro ilegítimo (Ato 3º, cena III). Na ocasião, à sugestão “Arrá! Não gosto disso!” acrescentou comentário em aparente defesa do ex-tenente e suposto amigo: “(…) Cássio, meu senhor? Não, é certo que não, não posso nem imaginar uma coisa dessas, que ele iria embora esgueirando-se, com modos de culpado, ao vê-lo chegar” (SHAKESPEARE, 2019, p. 72).
  • Convenceu Emília, sua esposa e criada de Desdêmona, a apropriar-se do lenço que foi presente de Otelo à dama (Ato 3º, cena III), para colocá-lo nas mãos de Cássio. Ao mesmo tempo em que relatou ter visto o lenço em poder do ex-tenente, advertiu Otelo sobre o véu com que o ciúme cobria sua vista e sugeriu que ele investigasse a situação por si mesmo: “Vejo, meu general, que o senhor está se deixando consumir por essa paixão. Arrependo-me de tê-lo colocado em tal estado. Quer ter satisfeita a sua curiosidade?” (SHAKESPEARE, 2019, p. 86).

Iago é o vilão típico, porque pratica consciente e engenhosamente o mal. Não estabelece relação de amizade verdadeira nem tem lealdade para com pessoa alguma. É, em essência, traiçoeiro e egoísta, tanto que investe sua espada contra Rodrigo para eliminar a testemunha da emboscada a Cássio e evitar devolver-lhe dinheiro e jóias que lhe foram confiadas para entrega a Desdêmona. Iago manipula a própria esposa para obter o lenço e termina por apunhalá-la, quando ela denuncia a falsificação da prova de adultério. Em suma, busca locupletar-se, ao mesmo tempo em que sente prazer em semear a discórdia e tramar infortúnios, inclusive assassinados.

O gênero dramático favorece a verbalização do discurso desse vilão de duas maneiras. Por um lado, em falas à socapa, permite que ele explicite suas intenções e maquinações em fluxos de pensamento; de outro lado, expõe sua vilania nos diálogos com outros personagens, especialmente naqueles em que descreve seus planos de traição a Rodrigo. Além disso, do confronto entre situação e palavras, a audiência (leitor e plateia) infere o fel do discurso de Iago nos momentos em que planta a semente da desconfiança no espírito de Otelo.

Algumas de suas falas merecem destaque, porque sintetizam seus ardis e revelam traços de sua personalidade perversa.

A Rodrigo, Iago explica sua falsa fidelidade a Otelo da seguinte maneira (Ato 1, cena I):

“Ah, meu senhor, não se preocupe. Continuo dele sendo seguidor que é para dar-lhe o troco que merece. Não podemos todos ser mestres, nem todos os mestres podem ser lealmente seguidos. O senhor com certeza não deixará de notar vários criados obsequiosos e submissos que, apaixonados por seu próprio vínculo de servidão, vão esgotando seu tempo de vida, igualzinho como fazem os asnos de seus amos, matando-se de trabalhar por nada além de forragem seca só para, quando ficarem velhos, serem despedidos. Pois quero mais é que sejam açoitados esses criados honestos. Outros há que, maquilados com as formas e fantasias do dever, mantêm no entanto seus corações a serviço de si mesmos e, cobrindo seus amos e senhores com não mais que demonstrações de servitude, prosperam por seu lado; e, quando forraram os bolsos, prestam homenagem a si próprios. Esses sujeitos têm alguma alma, e uma alma assim tenho eu, é o que lhe declaro (…)” (SHAKESPEARE, 2019, p. 10-11).

Depois de revelar a Rodrigo seu plano para corromper a amizade entre Otelo e seu tenente, Iago rumina sozinho (Ato 2, cena I):

“(…) se esse pobre rebotalho de Veneza, que trago pela coleira para essa rápida caçada, aguentar a incitação… terei Miguel Cássio preso pela cintura. Aos ouvidos do Mouro, ofenderei em seu uniforme de oficial… farei com que o Mouro me agradeça, me aprecie e me gratifique por fazer dele um ilustre asno, e isso tudo trapaceando contra sua paz e quietude, levando-o à loucura. Ela está bem aqui, porém ainda confusa: a mais pura face da canalhice, jamais vista até que seja usada” (SHAKESPEARE, 2019, p. 50).

Após ter convencido Cássio a buscar interseção de Desdêmona (Ato 2, cena III), Iago diz a si mesmo:

“E quem se atreverá a dizer que meu papel é o de vilão quando esse conselho dou de graça e de coração, um conselho bastante plausível, e, na verdade, o caminho para reconquistar o Mouro? Pois é fácil para a graciosa, obsequiosa Desdêmona empenhar-se em qualquer pedido honesto. Ela é de constituição que frutifica como os elementos da natureza. E assim, para ela obter algo do Mouro, mesmo que fosse ele renunciar ao próprio batismo, às garantias e símbolos de seus pecados remidos, tem ele sua alma tão agrilhoada ao amor dela que ela pode fazer, desfazer, inventar o que lhe aprouver, mesmo brincando de deus os apetites dela com as enfraquecidas faculdades deles. Como, então, posso eu ser um vilão ao aconselhar Cássio nesse caminho paralelo, o mais curto para o seu próprio bem? Divindades do inferno! Quando o desejo dos demônios é vestir os mais negros pecados, eles insinuam-se primeiro com vestimentas angelicais, como eu faço agora. Enquanto esse honesto otário importuna Desdêmona com seus pedidos para que ela conserte o seu destino, e, enquanto ela, por ele, implora clemencia ao Mouro, eu estarei vertendo esta pestilência nos ouvidos de nosso general: que ela o quer de novo nas boas graças de seu superior para apaziguar a luxúria de seu corpo. E, quanto mais ela se esforçar por ajudá-lo, ela estará perdendo crédito junto ao  esposo. Assim, transformarei eu a virtude dela em piche, e, da própria bondade de Desdêmona, tecerei a malha que os enredará a todos” (SHAKESPEARE, 2019, p. 64-65).

Desmascarado ao final, Iago tenta esquivar-se da responsabilidade criminal e moral por seus atos, dizendo que apenas contou a Otelo o que pensava, “nada dizendo além daquilo que ele mesmo considerou provável e verdadeiro” ((SHAKESPEARE, 2019,p.145). No epílogo da peça, a audiência é obrigada a concordar que o papel de Iago foi discreto, mas proativo, consistente em arquitetar situações e fazer sugestões de aparente bom senso, em momentos estratégicos, aproveitando-se de fragilidades e ignorâncias. Forçosamente, também concluirá que plantar a semente da desconfiança, regando-a de forma comedida e expondo-a à luz de modo que apenas vicejassem os ramos da discórdia, é, de fato, prova da “mais pura vilania”.


REFERÊNCIAS

CAMPOS, Paulo Mendes. Contos de Shakespeare. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.

SHAKESPEARE, William. Otelo. Clássicos L&PM. ­Porto Alegre (RS): L&PM, 2019.

 

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