O autêntico discurso do “manifestante”

Tem-se visto na atualidade muitas críticas ao uso “politicamente correto da linguagem”, porque torna as relações humanas mais insossas e menos verdadeiras. Se na esfera pessoal isso já traz prejuízos à verdade, o estrago que ela causa quando empregada pelos meios de comunicação de massa é tenebroso. Sob o pretexto de ser politicamente corretos, muitos veículos de informação ajudam a afastar a população da realidade.

Lê-se hoje, no G1, a seguinte manchete:

Por definição, manifestante é

adj.2g.s.2g. (1881) 1 que ou aquele que se manifesta 1.1 que ou aquele que participa de manifestação pública de caráter político, reivindicatório etc. <grupos m.> <milhares de m. percorreram as ruas da cidade>

Com base nessa informação técnica, extraída do Dicionário Houaiss, cabe a pergunta: pode-se chamar de manifestante alguém que, armado de paus e pedras, resolve pôr fogo em um ônibus?

Quando se lê mais da notícia, o absurdo do uso do vocábulo salta aos olhos. Em seu primeiro parágrafo consta:

Manifestantes atearam fogo em dois ônibus na Zona Norte do Rio, na manhã desta sexta-feira (15). Um dos veículos foi incêndiado na Rua Estácio de Sá, próximo a um dos acessos ao Morro São Carlos, no Largo do Estácio. O segundo ônibus sofreu o atentado na Rua Campos da Paz, altura do número 52, no Rio Comprido. Moradores da região afirmam que o protesto começou depois que dois mototaxistas da comunidade foram encontrados mortos. Ainda de acordo com moradores, eles foram identificados como Rodrigo Marques Lourenço, de 29 anos, e Ramom de Moura Oliveira, 22.

Afinal, quem cometeu esses atos de vandalismo? Quem seriam os tais “manifestantes”? Poder-se-ia pensar que o comportamento transgressor partisse dos moradores da localidade, que estariam revoltados com os assassinatos. Contudo, isso é desmentido mais adiante no texto, onde se lê: “Moradores da comunidade estão apavorados com o clima de o segurança na região”.

Fazendo um exercício de detetive no texto (ou seja, seguindo as pistas linguísticas), é possível inferir que os revoltados sejam, preponderantemente, mototaxistas da região ou os membros de alguma associação interessada nesse tipo de transporte. Isso faz sentido, porque se espera que os assassinatos de membros de uma específica categoria profissional gerem comoção em seus pares e que estes sejam capazes de se organizar rapidamente para uma manifestação.

É natural que as pessoas se indignem e queiram reagir ao presenciarem uma crueldade perpetrada. Atitudes impulsivas podem ser tomadas, especialmente por quem tivesse alguma familiaridade com as vítimas. Convém, todavia, ter em mente que reações de violência gratuita não são a primeira opção de gente ordeira e civilizada. A situação noticiada extrapola a lógica, quando se reflete sobre o objeto atacado. Por que pôr fogo em ônibus? Será que se cogita de que motoristas ou empresários desse ramo de transporte possam ter sido os algozes ou seus mandantes?

A lógica manda responder que não.

A verdade é que, hoje, qualquer bípede que saia publicamente depredando o patrimônio alheio (público ou privado) é chamada de “manifestante”. Mas, como prova o dicionário, manifestante é quem demonstra seu descontentamento. Portanto, não cabe assim denominar quem comete atos de violência e desrespeito com o patrimônio material e anímico dos cidadãos – existem termos mais precisos para denominar esse tipo de pessoa, que provoca agitação com o fim de instaurar a desordem e o caos. Novamente compulsando o dicionário, os termos pululam:

arruaceiro adj.s.m. (1899) 1 que ou aquele que promove ou participa de arruaça, confusão na rua; arruaçador, arruador, baderneiro 2 que ou quem demonstra valentia em brigas de rua

baderneiro adj.s.m.1 que ou aquele que é dado a fazer baderna, a criar desordem ou confusão 2 que ou quem promove noitadas ou vive na pândega; boêmio

bandido s.m. (a1575) 1 indivíduo que pratica atividades criminosas 2 p.ext. pessoa com sentimentos ruins;

criminoso \ô\ adj.s.m. (sXIII) 1 jur que ou aquele que infringiu por ação ou omissão o código penal, cometendo crime; delinquente, réu <não passava de um c. ditador> <o c. olhou-os sem emoção> 2 p.ext. que ou quem comete alguma falta, não necessariamente punível, porém condenável por uma ou mais pessoas ou pela sociedade <é um c., sempre lança seu lixo nas águas>  ♦ adj.3 relativo a ou que envolve crime <um ato c.> <c. violência> 4 p.met. repleto de crimes, que se inspira nestes ou os favorece <havia uma atmosfera c.> 5 p.ext. contrário às leis morais ou às do convívio social <mostraram uma ganância c.>

desordeiro adj.s.m. (1868)  que ou o que pratica ou gosta de desordens; baderneiro, arruaceiro

marginal adj.2g. (1716) (…)  5 p.ext. que não aceita os valores predominantes da sociedade ou da maioria <poeta m.6 econ produzido e comercializado com pequena margem de lucro 7 econ de importância secundária; que tem fraco valor quantitativo ou não é essencial num dado sistema <fatores m.> <setor m.>  ♦ adj.2g.s.2g. 8 que ou quem vive à margem da sociedade, desconsiderando a lei e a moral; delinquente, fora da lei, criminoso

vândalo (…)♦adj.s.m.2fig. que ou aquele que estraga ou destrói bens públicos, coisas belas, valiosas, históricas etc. <destruíram o ônibus num ataque v.> <um grupo de v. atacou a igreja> (…)

Fonte: Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa.

É preciso ter a decência de atribuir a essas pessoas os substantivos e adjetivos que melhor as descrevem. Quem sai às ruas com paus e pedras e coloca fogo em ônibus (prejudicando grande número de pessoas que nada tem a ver com sua causa) merece ser chamado de bandido, mal-feitor, agitador, desordeiro, vândalo e marginal. O discurso do verdadeiro manifestante compõe-se de palavras de ordem; por outro lado, o discurso dos vândalos é feito com ações violentas. Portanto, não é difícil distingui-los.

O uso desarrazoado da palavra “manifestante” não revela a falta de precisão da notícia, mas, principalmente, uma condescendência com atitudes alheias à civilidade. Decorre de uma postura intelectualmente covarde que avilta a inteligência da população, e o faz com o intuito de garantir sua adesão a práticas desprezíveis de celebração da barbárie – ou pelo menos sua passividade diante delas.

Íntegra da reportagem disponível em: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/05/manifestantes-ateiam-fogo-em-onibus-na-zona-norte-do-rio.html.