O discurso de O’Brien (socialismo puro e simples)

“Ao futuro ou ao passado, a um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros, em que não vivam sós — a um tempo em que a verdade exista e em que o que for feito não possa ser desfeito:

Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplipensamento — saudações”

Escrito por George Orwell, 1984 é um clássico da literatura distópica. Talvez o cúmulo da distopia seja o fato de um declarado entusiasta do socialismo descrever criticamente diversas formas de controle, manipulação e violência empregadas pelos regimes revolucionários para a implantação do “paraíso” da igualdade, que a história costuma designar comunismo.

Em 1984, Orwell narra a miserável vida de um funcionário do Departamento de Documentação do Ministério da Verdade: Winston Smith acredita ter 39 anos, sofre com úlcera varicosa no tornozelo e mora sozinho em condomínio de apartamentos decadente denominado “Mansões Victory”. Seu cotidiano é típico de um membro inferior do partido: alimenta-se mal, bebe vodca vagabunda e está sempre à mercê da teletela, artefato por meio do qual são veiculadas instruções para a prática de exercícios físicos, notícias sobre as guerras, discursos do “Grande Irmão” etc. O mecanismo tecnológico ainda permite vigiar as ações das pessoas, de modo a controlar comportamentos e coibir as mais discretas manifestações de oposição ao Partido. Graças à teletela, todos em Oceânia vivem sob o império do medo.

No interior do apartamento, uma voz agradável lia alto uma relação de cifras que de alguma forma dizia respeito à produção de ferro-gusa. A voz saía de uma placa oblonga de metal semelhante a um espelho fosco, integrada à superfície da parede da direita. Winston girou o interruptor e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras continuassem inteligíveis. O volume do instrumento (chamava-se teletela) podia ser regulado, mas não havia como desligá-lo completamente. (…)

Por trás de Winston, a voz da teletela continuava sua lenga-lenga infinita sobre o ferro-gusa e o total cumprimento — com folga — das metas do Novo Plano Trienal. A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Todo som produzido por Winston que ultrapassasse o nível de um sussurro muito discreto seria captado por ela; mais: enquanto Winston permanecesse no campo de visão enquadrado pela placa de metal além de ouvido também poderia ser visto. Claro, não havia como saber se você estava sendo observado num momento específico.

Ocorre que justamente as tarefas desempenhadas por Smith no Ministério da Verdade levam-no a suspeitar de que as ações do Partido fossem metodicamente calculadas para manter a população de Oceânia alienada da realidade política, cultural e econômica do país e do mundo. Em seu dia a dia, Smith recolhe pequenas pistas do grande engodo. Apesar de seu raciocínio lento e de sua credulidade condicionada, ele percebe indícios, conecta-os e, deduzindo a existência de um sistema de controle de informação, decide resistir à submissão imposta. Sua desconfiança estende-se à inexistência do Grande Irmão, de modo que ele passa a repudiar os lemas do partido: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”. Suas primeiras ações de rebeldia são: escrever um diário e envolver-se em um relacionamento amoroso.

O gatilho para a ruptura foi uma fotografia, “indício concreto de um ato de falsificação” que estivera entre seus dedos por 30 segundos apenas. Foi cumprindo sua rotina tediosa que Smith despertou. O trabalho de Smith no Ministério da Verdade consistia em alterar publicações de modo a garantir que as declarações do Partido se tornassem retroativamente verdade. Não se tratava de modificar um texto apenas, mas de alterar um conjunto de publicações (artigos, jornais, compêndios e enciclopédias) estabelecendo como uma verdade histórica e coerente o que fosse determinado pelo partido.

“As mensagens que Winston recebera diziam respeito a artigos ou reportagens que por esse ou aquele motivo fora julgado necessário alterar — ou, no linguajar oficial, retificar. Por exemplo, a leitura do Times de 17 de março dava a impressão de que, um discurso proferido na véspera, o Grande Irmão previra que as coisas permaneceriam calmas no fronte do sul da Índia, mas que o norte da África em breve assistiria a uma ofensiva das forças eurasianas. Na verdade, porém, o alto-comando da Eurásia lançara uma ofensiva sobre o sul da Índia, deixando o norte da África em paz. Assim, era necessário reescrever um parágrafo do discurso do Grande Irmão, de forma a garantir que a previsão que ele havia feito estivesse de acordo com aquilo que realmente acontecera. (…)”

A malfadada fotografia desencadeadora da desconfiança constava de uma notícia, publicada 10 anos antes da tomada de consciência do protagonista, sobre uma comemoração do Partido. Registrava-se a presença de Jones, Aaronson e Rutherford em um importante evento ao lado de relevantes agentes da revolução. Ocorre que os três homens foram condenados, anos depois, por crime de traição. Eles confessaram que, na mesma data da notícia, estavam em solo eurasiano, tramando com o estado-maior da Eurásia a derrubada do Grande Irmão. Por isso, foram presos, mas depois perdoados. Anos depois, coube a Smith publicar notícia sobre sua reincidência criminosa dos três e sua consequente condenação à morte.

A partir do acesso a essas informações contraditórias, Smith percebeu o grande engodo, concluindo que sua tarefa não se restringia a “retificações” apenas, mas implicava a reescrita completa da história conforme os interesses do Partido. Nesse contexto, ele buscou meios não só escapar àquela dominação, mas também de lutar contra ela. Com tal disposição, Smith encontra cumplicidade em O’Brien, outro funcionário do Ministério da Verdade, ocupante de um “cargo importante e remoto” no Núcleo do Partido, que lhe oferece ajuda, dizendo-se conspirador antirrevolucionário.

Infelizmente, Winston Smith foi envolvido um uma trama nefasta que o conduziu para a tortura no cárcere, onde é submetido a um processo de “reeducação” doloroso cujo objetivo era levá-lo a, sinceramente, amar o Grande Irmão. Depois de sessões de brutalidade física e isolamento, coube a O’Brien submetê-lo ao esgarçamento psicológico, durante o qual o algoz trava um diálogo com Smith, explicitando os motivos de suas ações, que, segundo ele próprio declara, não são suas individualmente, mas, sim, as razões do partido.

Portanto, o vilão nesse romance personifica a entidade revolucionária que domina todo o ambiente da narrativa e que, por instrumentos diversos, submete e aliena a população de Oceânia, inclusive o protagonista. A voz de O’Brien corresponde à verbalização da ideologia norteadora do regime implantado, sendo espantosamente explícita quantos aos seus métodos e objetivos.

Entre arroubos de sordidez e arrogância, O’Brien tem o cuidado de explicar a Smith toda a ideologia do Partido, ressaltando seu poder absoluto e onisciência. Eis os trechos mais relevantes do diálogo entre entre vilão e protagonista:

O’Brien o observava com expressão especulativa. Tinha mais do que nunca, o ar de um professor lidando pacientemente com uma criança teimosa porém promissora.

“Há um slogan do partido abordando o controle do passado”, disse. “Repita-o, por favor”.

“Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”, repetiu Winston, obediente.

“Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”, disse O”Brien, balançando a cabeça para demonstrar sua aprovação. “Você acha, Winston, que o passado tem uma existência real?”

O sentimento de impotência tornou a se apossar de Winston. Seus olhos se apressaram em mirar o mostrador. Não apenas desconhecia se a resposta que o reguardaria da dor era “sim” ou “não”, como estava inseguro quanto à resposta que ele próprio acreditava ser verdadeira.

O”Brien esboçou um sorriso. “A metafísica não é o seu forte, Winston”, disse. “Até este momento, você nunca havia se perguntado o que é que as pessoas entendem por existência. Vou formular a pergunta com mais precisão. Por acaso o passado existe concretamente no espaço? Há em alguma parte um lugar, um mundo de objetos sólidos, onde o passado ainda esteja acontecendo?”

“Não.”

“Então onde o passado existe, se de fato existe?”

“Nos documentos. Está registrado.”

“Nos documentos. E… ?

“Na mente. Na memória humana.”

“Na memória. Muito bem. Nós, o Partido, controlamos todos os documentos e todas as lembranças. Portanto, controlamos o passado, não é mesmo?

“Mas como vocês podem impedir que as pessoas se lembrem das coisas?, gritou Winston, tornando a se esquecer momentaneamente do mostrador. “É involuntário. É uma coisa que foge do controle da pessoa. Como podem controlar a memória” A minha vocês não controlam!”

O’Brien voltou a assumir uma atitude severa. Levou a mão ao mostrador.

“Pelo contrário”, disse, “foi você que  não a controlou. Por isso foi trazido para cá. Está aqui porque não teve humildade suficiente, não teve autodisciplina. Não se dispôs ao ato de submissão que é o preço a ser pago pelo equilíbrio mental. Preferiu ser um lunático, uma minoria de um. Só a mente disciplinada enxerga a realidade, Winston. Você acha que a realidade é uma coisa objetiva, externa, algo que existe por conta própria. Também acredita que a natureza da realidade é autoevidente. Quando se deixa levar pela ilusão de que vê alguma coisa, supõe que todos os outros veem o mesmo que você. Mas eu lhe garanto, Winston, a realidade não é externa. A realidade existe na mente humana e em nenhum outro lugar. Não na mente do individual, que está sujeita a erros e que, de toda maneira, logo perece. A realidade existe apenas na mente do Partido, que é coletiva e imortal. Tudo o que o Partido reconhece como verdade é a verdade. É impossível ver a realidade se não for pelos olhos do Partido. É esse o fato que você precisa reaprender, Winston. E isso existe um ato de autodestruição, um esforço de vontade. Você precisa se humilhar antes de conquistar o equilíbrio mental.”

O’Brien fez uma breve pausa , como para permitir que suas palavras fossem devidamente compreendidas.

“Lembra-se”, continuou ele, “de ter escrito em seu diário: ‘Liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro’?”

“Lembro”, disse Winston.

O’Brien levantou a mão esquerda e mostrou seu dorso para Winston, como o polegar escondido e os outros quatro estendidos.

“Quantos dedos tem aqui, Winston?”

“Quatro.”

“E se partido disser que não são quatro, mas cinco — quantos serão?”

“Quatro.”

A palavra foi concluída com um gemido de dor. O ponteiro do mostrador saltara para cinquenta e cinco. O suor recobria todo o corpo de Winston. O ar que entrou em seus pulmões saiu sob a forma de grunhidos fundos, que nem trincando os dentes Winston conseguia sufocar. O’Brien observava-o com os quatro dedos ainda estendidos. Puxou a alavanca de volta. Dessa vez, a dor foi apenas levemente mitigada.

“Quantos dedos, Winston?”

“Quatro.”

O ponteiro saltou para sessenta.

Quantos dedos, Winston?”

“Quatro! Quatro! Que mais posso dizer? Quatro!”

O ponteiro provavelmente tornara a subir, porém Winston não olhou para o mostrador. O semblante carregado, severo, e os quatro dedos ocupavam todo o seu campo de visão. Tinha os dedos diante dos olhos, como colunas, enormes, desfocadas e dando a impressão de vibrar, mas inequivocamente quatro.

Quantos dedos, Winston?”

“Quatro! Pare, pare! Como pode continuar com isso? Quatro! Quatro!”

Quantos dedos, Winston?”

“Cinco! Cinco! Cinco!”

“Não, Winston, assim não. Você está mentindo. Continua achando que são quatro. Quantos dedos?”

“Quatro! Cinco! Quatro! O que você quiser. Apenas para com isso, pare a dor!”

De repente, viu-se sentado na cama, com o braço de O’Brien em volta de seus ombros. Provavelmente perdera a consciência por alguns segundos. As tiras que prendiam seu corpo à cama foram afrouxadas. Sentia muito frio, tremia de maneira incontrolável, seus dentes batiam, lágrimas deslizavam por suas faces. Por um momento, permaneceu agarrado a O’Brien como um bebê, curiosamente reconfortado pelo braço pesado em torno do ombro. Tinha a sensação de que O’Brien era seu protetor, que a dor era algo que vinha de fora, que sua origem era outra, e que era O’Brien que o salvara dela.

“Você aprende devagar, Winston”, disse O’Brien gentilmente.

“O que posso fazer?”, respondeu Winston entre lágrimas. “Como posso deixar de ver o que tenho diante dos olhos? Dois e dois são quatro.”

“Às vezes, Winston. Às vezes são cinco. Às vezes são três. Às vezes são todas essas coisas ao mesmo tempo. Precisa se esforçar mais. Não é fácil adquirir equilíbrio mental.”

As sessões com O’Brien destinavam-se a fazer com que Smith deixasse de ver com seus próprios olhos! Depreende-se do diálogo que o “equilíbrio mental” significa conformação ao modo de vida imposto. A negação da realidade factual e a substituição do conhecimento elementar pelos ditames do Partido encontram na subversão da aritmética uma imagem poderosa e recorrente na obra. Nesse contexto, a resistência de Smith a aceitar que dois mais dois são cinco — em última instância, a impossibilidade cognitiva e moral de renegar o próprio conhecimento — constitui o pilar que o Partido precisa derrubar para aniquilar a individualidade do protagonista.

Para dobrar-lhe a consciência, é necessário utilizar violência extrema. Quando o mostrador da máquina acusa a chegada do ponteiro a noventa, “atrás das pálpebras fechadas” Winston enxerga uma floresta de dedos mover-se numa dança. Tal eram a dor e a desorientação, que ele torna-se verdadeiramente incapaz de ter certeza quanto à imagem que tem diante dos olhos.

“Quantos dedos estou mostrando para você, Winston?”

“Não sei, não sei. Você vai me matar, se fizer isso de novo. Quatro, cinco, seis — com toda sinceridade, não sei.”

“Assim é melhor”, disse O’Brien.

Não obstante, O’Brien sabe que a rendição mental não se completou. O Partido não se contenta com submissão a seus desígnios tampouco com a mera repetição de seus preceitos. A individualidade do insurgente (tido como inimigo) precisa ser literalmente destruída — e isso significa que Smith deve aprender a pensar “corretamente”. Como o algoz confessa, o seu pensamento deve ser transformado, conformando-se totalmente à ideologia do Partido.

“Sabe onde você está, Winston?”

“Não. Imagino que no Ministério do Amor.”

“Sabe há quanto tempo está aqui?”

“Não faço ideia. Dias, semanas, meses… Acho que alguns meses.”

“E por que acha que trazemos as pessoas para este lugar?”

“Para fazê-las confessar.”

“Não, não é por isso. Tente de novo.”

“Para castigá-las.”

“Não!”, exclamou O’Brien. Sua voz se modificara extraordinariamente e seu rosto assumira um aspecto a um só tempo ríspido e entusiasmado. “Não! Não é apenas para obter confissão nem para castigar você. Será que preciso explicar por que o trouxemos para cá? Foi para curá-lo! Para fazer de você uma pessoa equilibrada! Será que é tão difícil assim você entender, Winston, que ninguém sai deste lugar sem estar curado? Não estamos preocupados com aqueles crimes idiotas que você cometeu. O  Partido não se interessa pelo ato em si: é só o pensamento que nos preocupa. Não nos limitamos a destruir nossos inimigos; nós os transformamos. Entende o que estou querendo dizer?”

Esse método de destruição do pensamento e da individualidade é, segundo O’Brien, mais eficaz do que os métodos utilizados pela Inquisição, pelos nazistas alemães e pelos comunistas russos, que criaram mártires em curto ou longo prazo, em vez de destruírem seus inimigos. Ademais, o sangue dos mártires alimenta a oposição, nutrindo seus ideais.

“(…) Porque a Inquisição matava seus inimigos às claras, e os matava sem que houvessem se arrependido; na verdade, matava-os porque não se arrependiam. As pessoas morriam porque não renunciavam a suas verdadeiras crenças. Naturalmente, toda a glória ficava com a vítima e toda a vergonha com o inquisidor que a mandara para a fogueira. Mais tarde, nos século XX, vieram os totalitários, como eram chamados. Os nazistas alemães e os comunistas russos. A perseguição que os russo faziam às heresias era ainda mais cruel que a da Inquisição. Eles imaginavam que tinham aprendido como os erros do passado; pelo menos sabiam que não podiam produzir mártires. Antes de expor as vítimas a julgamentos públicos, tratavam de destruir deliberadamente sua dignidade. Arrasavam-nas por meio de tortura e solidão, até transformá-las em criaturas lamentáveis, amedrontadas e desprezíveis, dispostas a confessar tudo o que lhes pusessem na boca, cobrindo-se a si próprias de injúrias, fazendo acusações e protegendo-se umas atrás das outras, suplicando clemência. E, não obstante isso, passados alguns anos acontecia a mesma coisa. Os mortos tornavam-se mártires e sua degradação era esquecida. Me diga, uma vez mais, por que isso acontecia? Em primeiro lugar, porque suas confissões tinham sido evidentemente extorquidas e eram falsas. Não cometemos o mesmos tipo de erro. Todas as confissões proferidas aqui são verdadeiras. Fazemos com que sejam verdadeiras. E, sobretudo, não permitimos que os mortos se levantem contra nós. Você precisa parar de pensar que a posteridade o absolverá, Winston. A posteridade nunca ouvirá falar de você. Você será excluído do rio da história. Transformaremos você em gás e o mandaremos para a estratosfera. Não vai sobrar nada de você: nem seu nome no livro de registros, nem sua memória num cérebro vivo. Será aniquilado no passado e no futuro. Nunca terá existido.

Então, por que perdem tempo me torturando, pensou Winston com amargura passageira. O’Brien estancou, como se Winston tivesse pensado em voz alta. Com os olhos ligeiramente estreitados, seu rosto grande e feio se aproximou.

“Está pensando que”, disse, “se pretendemos destruí-lo tão absolutamente, de modo que nada do que você diga ou faça tenha a menor importância… Nesse caso, por que nos damos ao trabalho de interrogá-lo antes? Era isso que estava pensando, não era?”

“Era”, disse Winston.

O’Brien esboçou um sorriso. “Você é uma peça defeituosa, Winston. Uma nódoa a ser limpa. Não acabei de dizer que somos diferentes dos perseguidores do passado? Não nos contentamos com a obediência negativa nem com a submissão mais abjeta. Quando finalmente se render a nós, terá de ser por livre e espontânea vontade. Não destruímos o herege porque resiste a nós; enquanto ele se mostrar resistente, jamais o destruiremos. Nós o convertemos, capturamos o âmago de sua mente, remodelamos o herege. Extirpamos dele todo o mal e toda a ilusão; trazemos o indivíduo para o nosso lado, não de forma superficial, mas genuinamente, de corpo e alma. Antes de eliminá-lo, fazemos com que se torne um de nós. (…)”

A estratégia de transformar o dissidente em genuíno apoiador do Partido antes de aniquilá-lo visa à inicialmente à homogeneidade do discurso revolucionário e, em última instância, à construção de uma espiral do silêncio. Toda voz que se levantar será em defesa dos ideais revolucionários ou para ratificar suas ações.

Então, faz sentido que os mecanismos de repressão sejam tanto físicos quanto psicológicos, voltados para o controle esmerado do discurso nos espaços públicos e privados. Para arremate desse projeto de controle total, sobressai a importância da novilíngua (ou novafala em outras traduções), criando o ambiente cultural que engessa o pensamento nas formas de expressão autorizadas pelo Partido.

Diante da descrição de uma sociedade tão lúgubre, é de provável que o leitor, após um ataque de claustrofobia, pergunte-se: por quê construir um ambiente social tão nocivo ao espírito humano?

O’Brien oferece uma resposta, como se verá na citação a seguir. E é interessante notar que o empreendimento revolucionário não se escuda sob o ideal da promoção de um mundo melhor, como sói acontecer nos ideários comunistas verbalizados! O’Brien é franco e explica que o Partido deseja poder — aliás, deseja perpetuar-se no poder para seu benefício próprio.

“O partido deseja o poder exclusivamente em benefício próprio. Não estamos interessados no bem dos outros; só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro. O que significa poder puro? Você vai aprender daqui a pouco. Somos diferentes de todas as oligarquias do passado porque sabemos muito bem o que estamos fazendo. Todos os outros, inclusive os que se pareciam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto de nós em matéria de métodos, mas nunca tiveram a coragem de reconhecer as próprias motivações. Diziam, e talvez até acreditassem, que tinham tomado o poder contra a vontade e por um tempo limitado. E que na primeira esquina da história surgiria um paraíso em que todos os seres humanos seriam livres e iguais. Nós não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com o objetivo de abandoná-lo. Poder não é um meio, mas um fim. Não se estabelece uma ditadura para proteger uma revolução. Faz-se a revolução para instalar a ditadura. O objetivo da perseguição é a perseguição. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder. (…)”

Fora da ficção, os regimes estabelecidos com base na mentalidade revolucionária são utópicos, porque pregam a destruição do presente como etapa necessária à construção de um paraíso no futuro, no qual haja igualdade entre os homens. A expressão “ditadura do proletariado” é, por si só, a promessa de compartilhamento do poder absoluto de forma equânime entre os membros da classe trabalhadora. Porém, os incautos não atinam para o perigo de o movimento inicial para alcançar essa igualdade consistir em entregar todo o poder nas mãos de um “grande líder benevolente e justo” — essa é a teoria ou, pelo menos, a forma como expressam os condutores da revolução.

Parece ser justamente nesse ponto que se descortina a crítica do autor à ideologia que ele próprio defende. Ressalte-se que sua discordância parece restringir-se aos métodos, e não aos objetivos revolucionários. É possível inferir que, para Orwell, decisões equivocadas estariam afastando o  socialismo do seu ideal de promover o bem do povo, da coletividade, culpando a personalidade ególatra dos líderes pelo desvirtuamento da revolução. Nesse sentido, pode-se entender que a verbalização do desejo de poder feita por O’Brien mostra-se uma denúncia, uma demonstração de descontentamento, uma crítica, enfim, aos rumos do socialismo.

“Nós somos os sacerdotes do poder”, disse. “Deus é poder. Mas, por enquanto, no que lhe diz respeito, poder não é mais que uma palavra. Já está na hora de você ter uma ideia do que significa poder. A primeira coisa que precisa entender é que o poder é coletivo. O indivíduo só consegue ter poder na medida em que deixa de ser um indivíduo. Você conhece o lema do Partido: ‘Liberdade é Escravidão’. Nunca se deu conta de que a frase é reversível? Escravidão é liberdade. Sozinho — e livre — o ser humano sempre será derrotado. Assim tem de ser, porque todo ser humano está condenado a morrer, o que é o maior de todos os fracassos. Mas se ele atingir a submissão total e completa, se conseguir abandonar sua própria identidade, se conseguir fundir-se com o Partido a ponto de ser o Partido, então será todo-poderoso e imortal. A segunda coisa que você precisa entender é que poder é poder sobre os seres humanos. Sobre os corpos — mas, acima de tudo, sobre as mentes. Poder sobre a matéria — a realidade objetiva, como você diria — não é importante. Nosso controle sobre a matéria já é absoluto.”

(…) “Controlamos a matéria porque controlamos a mente. A realidade está dentro do crânio. Aos poucos você vai aprender, Winston. Não há nada que não possamos fazer. Levitar, ficar invisíveis — qualquer coisa. Se quiser, posso flutuar como uma bolha de sabão. Mas não quero, porque o Partido não quer. Você precisa se livrar dessas ideias do século XX a respeito das leis da natureza. Nós é que fazemos as leis da natureza.”

(…)

“Mas o mundo inteiro não passa de um grão de areia. E o homem é uma coisa mínima — um desvalido! Há quanto tempo a humanidade existe? Por milhões de anos a Terra foi inabitada.”

“Bobagem. A Terra tem a mesma idade que nós. Como seria possível que fosse mais velha? As coisas só existem por intermédio da consciência humana.”

“Mas o solo está cheio de ossos de animais extintos — mamutes, mastodontes e répteis enormes que viveram aqui muito antes de alguém falar em ser humano.”

“E alguma vez você viu esses ossos, Winston? Claro que não. Eles foram inventados pelos biólogos do século XIX. Antes do homem não havia nada. Depois do homem, se sua extinção vier a ocorrer, não haverá nada. Fora do homem não há nada.”

Em outra perspectiva, é relevante observar o emprego de termos que remetem à seara religiosa para descrever a relação do Partido com o poder bem como a menção à imortalidade no trecho acima. Pode-se, com base nisso, vislumbrar a intenção do Partido de ocupar o espaço que pertence ao divino, substituindo Deus no imaginário e no cotidiano das pessoas. Conhecendo-se a aversão que a mentalidade revolucionária tem à transcendência, estabelece-se uma chave de leitura que permite entender o motivo pelo qual o Partido precisa promover o sofrimento dos insurgentes, em vez de simplesmente exterminá-los. Se a cristandade prega o amor; o Partido opõe-se pregando o ódio.

Em artigo intitulado “Citações elucidativas”, o filósofo Olavo de Carvalho elenca declarações de notórios líderes socialistas, mostrando que o ódio é combustível que impulsiona a máquina da cultura revolucionária:

“Precisamos odiar. O ódio é a base do comunismo. As crianças devem ser ensinadas a odiar seus pais se eles não são comunistas.” (V. I. Lenin)

“Somos favoráveis ao terror organizado — isso deve ser admitido francamente.” (V. I. Lenin)

“O comunismo não é amor. É o martelo com que esmagamos nossos inimigos.” (Mao Tsé-tung)

“O ódio intransigente ao inimigo, que impulsiona o revolucionário para além das limitações naturais do ser humano e o converte em uma efetiva, seletiva e fria máquina de matar: nossos soldados têm de ser assim.” (Che Guevara)

A modificação que o Partido pretende realizar na sociedade é tão profunda a ponto de recriá-la, aniquilando a crença no transcendente, para assumir a posição da divindade. Sua estratégia para alcançar a eternidade é dominar o homem, (re)escrever e, por fim, construir a história da humanidade, modificando os fatos e interferindo até na ciência de forma pragmática. Nessa perspectiva, não há diferença entre ilusão e verdade; entre certo e errado; entre fato e ficção, pois tudo atenderá aos desígnios do Partido.

Para tornar-se Deus na Terra, o Partido precisa destruir a humanidade (no sentido filosófico, histórico e cultural), o que é impossível se o homem individualmente buscar amor e justiça. Apenas convertidos ao Partido os homens ficariam blindados à percepção do medo, da traição e do tormento que imperam no mundo — nesse processo também não poderiam experimentar o amor, a amizade, a lealdade e a fé transcendente que dá sentido à vida. O Partido oferece alienação em troca da escravidão espiritual, o que muito se assemelha a um pacto com o demônio.

“(…) Obediência não basta. Se ele [o homem] não sofrer, como você pode ter certeza de que obedecerá à sua vontade e não à dele próprio? Poder é infligir dor e humilhação. Poder é estraçalhar a mente humana e depois juntar outra vez os pedaços, dando-lhes a forma que você quiser. (…) Um mundo de medo e traição e tormento, um mundo em que um pisoteia o outro, um mundo que se torna mais e não menos cruel à medida que evolui. O progresso, no nosso mundo, será o progresso da dor. As velhas civilizações diziam basear-se no amor ou na justiça. No nosso mundo mundo, as únicas emoções serão o medo, a ira, o triunfo e a autocomiseração. Tudo o mais será destruído — tudo. Já estamos destruindo os hábitos de pensamento que sobreviveram  da época anterior à Revolução. Cortamos os vínculos entre pais e filhos, entre homem e homem, e entre homem e mulher. Ninguém mais se atreve a confiar na mulher ou no filho ou no amigo. Mas no futuro já não haverá esposas ou amigos, e as crianças serão separadas das mães no momento do nascimento, assim como se tiram os ovos das galinhas. O instinto sexual será erradicado. A procriação será uma formalidade anual, como a renovação do carnê de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Nosso neurologistas já estão trabalhando nisso. A única lealdade será para com o Partido.O único amor será o amor ao Grande Irmão. O único riso será o do triunfo sobre o inimigo derrotado. Não haverá arte, nem literatura, nem ciência. Quando formos onipresentes, já não precisaremos da ciência. Não haverá distinção entre beleza e feiura. Não haverá curiosidade, nem deleite com o processo da vida. Todos os prazeres serão eliminados. Ma sempre — não se esqueça disso, Winston —, sempre haverá a embriaguez do poder, crescendo constantemente e se tornando cada vez mais sutil. Sempre, a cada momento, haverá a excitação da vitória, a sensação de pisotear o inimigo indefeso. Se você quer formar uma imagem do futuro, imagine uma bota pisoteando um rosto humano — para sempre.”

A destruição da família é retratada em diversos episódios da narrativa, com destaque para a arregimentação dos filhos, o que os leva a denunciar os pais por qualquer desvio de conduta. O próprio Smith não tem família, mantendo apenas vagas lembranças sobre sua mãe, a quem agrediu e abandonou; seu casamento foi um fracasso. Smith não tem amigos, apenas companheiros de trabalho com quem pode conversar sobre assuntos autorizados. Por isso, a imagem do rosto pisoteado pela bota é significativa.

A rendição de Smith ao Partido significa a perda de sua alma. O reconhecimento de nulidade diante do Partido demonstra que o sistema venceu e que poderá contar, a partir de então, com a colaboração de Smith. E não havia como ser diferente. O’Brien promete:

“(…) Quanto mais poderoso for o Partido, menos tolerante será. Quanto mais fraca a oposição, tanto mais severo será o despotismo.”

E não obstante demonstrar o domínio hegemônico do Partido e o aparente sucesso de seus métodos, o cerne da narrativa é o grande esforço da máquina revolucionária para dobrar um único homem. Engodo, violência e humilhação são expedientes para remover de Smith sua consciência e individualidade. Assim, mesmo que o desfecho do romance sinalize o triunfo do vilão, não se pode ignorar que as forças das trevas precisam empreender esforço descomunal para destruir a humanidade que existe em cada criatura de Deus.

A vitória do bem, ao final, depende da força interior de cada ser humano, e essa força emana do transcendente!


REFERÊNCIAS

CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. 29. ed. Rio de Janeiro, Editora Record, 2018.

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.