Captain Hook – as fragilidades de um vilão

Peter Pan é um clássico da literatura infantojuvenil no qual o menino que não cresce – e não quer crescer – enfrenta o mais cruel pirata da Terra do Nunca: o Capitão James Gancho.

Capa da obra de J.M. Barrie

Não obstante Gancho seja o típico perseguidor vingativo, sua personalidade é, por vezes, descrita com traços de sensibilidade e até certa complacência. Ele é bonito, elegante e melancólico. O narrador assim o apresenta:

 

“O Capitão Gancho era moreno e cadavérico, e seu cabelo era cheio de cachos que, a uma certa distância, pareciam velas negras, e davam um ar ameaçador ao seu belo rosto. Seus olhos eram azuis como o miosótis e tinham uma expressão de profunda melancolia – a não ser quando ele estava enfiando o gancho em alguém, pois aí as manchas vermelhas apareciam neles e os deixavam horrivelmente incandescentes.

Gancho ainda se portava um pouco como um fidalgo, e até estraçalhava seus inimigos com ares de grandeza. Além disso, já me disseram que era um grande raconteur. Ficava mais sinistro quando se comportava com mais polidez, o que provavelmente é a verdadeira marca registrada dos aristocratas; e a elegância de sua dicção, até quando falava palavrões, assim como a superioridade de seu comportamento mostravam que ele não era da laia de sua tripulação. Era um homem de coragem indomável, e dizem que só se assustava ao ver o próprio sangue, que era grosso e de uma cor diferente. No vestir Gancho imitava um pouco as roupas associadas ao rei Carlos II da Inglaterra, tendo ouvido, num período anterior de sua carreira, que era muito parecido com os azarados membros da dinastia Stuart. Na boca, Gancho tinha uma piteira que ele próprio fabricara e que lhe permitia fumar dois charutos ao mesmo tempo. Mas, sem dúvida, a parte mais aterradora de sua aparência era sua garra de ferro.”

 

O objeto que se distingue em seu nome foi acrescentado na extremidade de seu membro superior direito após uma luta na qual Peter Pan não apenas corto sua mão, como também a atirou a um crocodilo. A fera apreciou tanto o sabor, que passou a perseguir o Capitão Gancho para devorar-lhe o restante do corpo.

Após o sequestro de Wendy e dos meninos perdidos, Peter Pan decide acabar com Captain James Hook. "Agora é o Gancho ou eu".Após o sequestro de Wendy e dos meninos perdidos, Peter Pan decide acabar com Captain James Hook. “Agora é o Gancho ou eu”.

O narrador revela que a verdadeira e profunda causa do ódio de Gancho é a arrogância de Peter Pan:

 

“A verdade é que havia algo em Peter que provocava o capitão até deixá-lo ensandecido. Não era sua coragem, nem sua aparência encantado, nem… Não dá mais para ficar de rodeios, pois eu sei bem o que era, e tenho que contar. Era o fato de Peter ser tão arrogante.

Isso irritava muito Gancho; fazia com que ele cerrasse sua garra de ferro e, à noite, o perturbava como se fosse um pernilongo. Enquanto Peter estivesse vivo, aquele homem torturado ia se sentir como um leão enjaulado que vê um passarinho passar voando.”

 

Apesar da firme resolução a perseguir e matar Peter Pan, revelam-se traços tênues de benevolência e melancolia na da personalidade de Gancho quando ele encontra seu arqui-inimigo dormindo e tem a chance de matá-lo. O narrador insinua que ele teria hesitado em concretizar sua vingança:

 

“Foi assim, indefeso, que Gancho o encontrou. O capitão ficou em silêncio, parado no pé da árvore, olhando para o inimigo do outro lado do quarto. Será que nem um fiapo de compaixão surgiu para perturbar seu coração sombrio? Esse homem não era de todo mau; ele amava flores (me disseram) e doces melodias (sabia tocar piano até muito bem); e eu devo admitir com franqueza que a natureza idílica da cena o tocou profundamente. Dominado por seu lado melhor, Gancho teria subido com relutância a árvore e voltado lá para cima, se não fosse por uma coisa.

O que impediu Gancho de ir embora foi a aparência impertinente de Peter enquanto dormia. A boca aberta, o braço pendido, o joelho arqueado; eles eram tamanha personificação de arrogância que espero que algo assim jamais volte a ser visto por olhos tão sensíveis a uma ofensa como essa. Isso gelou o coração de Gancho. (…)”


Desse contraste de traços de personalidade, vê-se que o autor não construiu personagens maniqueístas. Peter Pan não é a pura imagem do heroísmo nem da ingenuidade infantil: ele é arrogante e não titubeia em matar (peles-vermelhas e piratas). Sininho também não se encaixa no protótipo da fada boa: ela trama a morte de Wendy assim que elas chegam à Terra do Nunca. Na mesma linha, Capitão James Gancho, conquanto seja malvado, tem sua dose de fragilidade, a qual se revela no momento em que, assim como os meninos perdidos, deseja ter uma mãe.

 

“— Capitão! A gente não pode sequestrar a mãe desses meninos e transformar ela na nossa mãe?

— Que plano magnífico! — exclamou Gancho, e imediatamente todo o plano se formou no enorme cérebro dele. — Nós vamos pegar as crianças e carregá-las até o navio. Os meninos vão andar na prancha e Wendy vai ser nossa mãe.”

 

Além disso, Gancho ressente-se de que nenhuma criança goste dele. O episódio mais revelador dessa carência afetiva ocorre quando as crianças estão aprisionadas no navio pirata e Gancho dá-se conta de que elas gostam de seu imediato, o Barrica, o capitão faz menção de matá-lo, mas arrepende-se de imediato.

 

“Com um grito de raiva, ele ergueu a mão de ferro sobre a cabeça de Barrica; mas não o matou. O que o impediu de fazê-lo foi esse pensamento: “Matar um homem por ele ter bons modos é o quê?”

“Maus modos!”

 

Nesse contexto, o vilão é uma personagem humanizada, e não a maniqueísta “encarnação da perversidade absoluta”, típica dos contos de fadas. É provável que o autor tenha optado por mostrar a falibilidade de caráter ao mesmo tempo em que expõe suas fragilidades, no intuito de levar as crianças a perceberem a complexidade do espírito e das ações humanas. Por isso, é coerente assumir que, além de malvado, o vilão seja sensível, sendo afetado por sentimentos corriqueiros e percalços cotidianos.

 

No filme “A volta à Terra do Nunca”, Dust Hoffman encarna o vilão de forma primorosa.